Conselheiro de Lula e amigo de Dilma, ex-ministro apagava incêndios no governo

Experiente e moderado, Thomaz Bastos sempre atuou nos bastidores dos governos Lula e Dilma para ajudar a resolver crises políticas

Marcelo de Moraes

20 de novembro de 2014 | 13h24

No fim de 2002, quando foi convidado pelo então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva para assumir o primeiro Ministério da Justiça de um governo petista, Márcio Thomaz Bastos esperava desafios importantes. Mas, certamente, não imaginava que assumiria, a partir dali, o papel de conselheiro especial de Lula e a função de uma espécie de decano a ser consultado sempre que situações complicadas surgissem.

Mesmo depois de deixar o governo, a amizade que tinha desenvolvido com Lula também já tinha se ampliado na direção da presidente Dilma Rousseff, com quem manteve ótimas relações quando foram colegas de equipe ministerial. A conversa e os conselhos, sempre equilibrados, mantiveram intacta sua posição de interlocutor privilegiado do Palácio do Planalto. Nos últimos 12 anos, sempre esteve por perto.

Não foi a toa que na nota de pesar que divulgou hoje, Dilma fez referência a essa relação claramente. “Quem teve o privilégio de conviver com ele, como eu tive, conheceu também um amigo espirituoso, de caráter e lealdade ímpares”, afirmou.

A posição não surgiu à toa. Experiente e moderado, Márcio Thomaz Bastos foi um bombeiro que apagou incêndios políticos dentro do governo. O primeiro e mais público deles foi o caso envolvendo o correspondente do New York Times no Brasil Larry Rohter, depois que ele assinou uma reportagem onde se referia a um consumo excessivo de álcool da parte do então presidente Lula.

Indignados com o texto, Lula e seus principais assessores reagiram com o fígado. Chegou a ser anunciado que Rohter seria expulso do Brasil por conta do que escrevera. Foi o ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos que impediu o governo de abrir uma crise, de proporções incalculáveis, ao dissuadir pessoalmente Lula da decisão. Na sua avaliação, a expulsão transformaria num escândalo internacional, prejudicial para a imagem do País, uma história que quase ninguém tinha notado a existência. Lula cedeu e, como previra Thomas Bastos, sem a expulsão, o caso caiu no esquecimento.

A partir daí, sempre foi ouvido em todas as crises de governo. Muitas vezes, Lula seguiu suas opiniões, apesar de opiniões contrárias de outros aliados. Dentro ou fora do poder, o ex-presidente nunca economizou elogios ao amigo.

Como ministro da Justiça, Thomaz Bastos foi uma espécie de reorganizador da Polícia Federal, tanto na sua estrutura como na implantação da filosofia que nenhuma pessoa estava acima da lei e, poderia, sim, ser investigada. Dezenas de operações relevantes foram deflagradas a partir daí.

De volta à carreira de advogado, Thomaz Bastos teve um papel importante no julgamento do Mensalão, quando assumiu a defesa de vários acusados. Como ex-ministro da Justiça e ex-integrante do governo petista – com vários ex-integrantes e aliados sendo acusados – Thomaz Bastos se transformou no foco das atenções do lado da defesa durante o julgamento.

Nos últimos anos, seguiu mantendo conversas regulares com Lula e Dilma, sendo mais frequentes com o primeiro. Sua morte consegue algo que parecia muito difícil nos últimos tempos dentro do PT: unirá, em torno das homenagens ao ex-ministro, todas as alas do partido.

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