Aécio retorna ao Senado e tenta consolidar papel de líder da oposição

Cacifado pelo bom desempenho eleitoral e mirando em 2018, senador mineiro será cada vez mais crítico em relação ao governo federal, mas rechaçando intervenção militar e ignorando pedidos de impeachment

Marcelo de Moraes

04 de novembro de 2014 | 11h38

Os mais de 50 milhões de votos recebidos no segundo turno da disputa presidencial qualificaram o senador tucano Aécio Neves (PSDB) como o principal nome da oposição nesse momento. Segundo seus principais interlocutores, o desafio, agora é não desperdiçar esse patrimônio político e mantê-lo forte pelos próximos quatro anos. O plano, obviamente, é fazer com que Aécio chegue fortalecido na disputa presidencial de 2018, quando Dilma Rousseff não poderá mais concorrer à reeleição, mas o PT deverá ter como candidato um nome ainda mais poderoso: o do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O primeiro passo nesse longo caminho de quatro anos começa hoje, com o discurso que Aécio fará no Senado, depois dos oito dias de descanso que tirou após as eleições. O tucano vai criticar pesadamente Dilma. Baterá muito na decisão de aumentar os juros, anunciada pelo governo apenas três dias depois da eleição da petista. Insistirá que o PT, durante a campanha, anunciou que os adversários pretendiam aumentar juros e tomar medidas duras na economia e, na verdade, acabaram fazendo exatamente o que diziam que os outros fariam. Dirá que a economia do governo Dilma segue num caminho de incertezas, na qual será difícil prever uma solução para a crise da falta de crescimento do País.

Aécio também despejará carga pesada contra as denúncias de corrupção envolvendo a Petrobrás. O tema já foi um dos principais assuntos da campanha, mas ganha mais força hoje com o afastamento do ex-senador Sérgio Machado do comando da Transpetro por conta do envolvimento de seu nome nas irregularidades da estatal. Machado teve o nome citado na delação premiada feita pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, que o acusou de ter pago propina de R$ 500 mil para o direcionamento de uma licitação da Transpetro. Cota do PMDB e próximo do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), Sérgio Machado pediu ontem licença do posto por 31 dias. Mas já se sabe que não voltará mais à função por decisão política do Palácio do Planalto que tenta conter a todo custo a sangria provocada pela crise da Petrobrás.

Aécio tenta assumir hoje essa posição natural de líder da oposição mas estabelecerá alguns limites. De forma alguma defenderá intervenção militar, como setores mais radicais têm pregado. Também não baterá bumbo a favor de alguma proposta de impeachment de Dilma, a quem reconheceu a vitória legítima ainda na noite da eleição. Mas dirá que a oposição estará vigilante em relação aos problemas do governo e cobrará ações concretas a cada problema.

Além de tentar manter o governo federal sob pressão, a estratégia de Aécio também visa conter seus próprios aliados. Se mantiver a força que garantiu nas urnas, sabe que poderá evitar que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), pleiteie a vaga de candidato tucano na disputa de 2018. Mas se for hesitante ou se desaparecer dos radares, esse comportamento permitirá que o governador paulista ocupe naturalmente esse espaço.

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