Depois do mensalão, crise da Petrobrás traz de volta tema da corrupção para a campanha eleitoral

Marcelo de Moraes

24 Março 2014 | 08h51

Governo e oposição não precisaram fazer contas muito complexas para saber que o julgamento do processo do chamado mensalão! pelo Supremo Tribunal Federal, tinha um prazo de validade limitado. Os dois lados sabiam que os efeitos políticos causados pela condenação e prisão de pesos pesados do tamanho de José Dirceu, João Paulo Cunha, José Genoíno, Valdemar Costa Neto, Delúbio Soares e Roberto Jefferson, entre outros, não durariam até mais do início do ano.

A partir daí, apesar de todos os desgastes causados, especialmente, ao PT, seria uma espécie de vida nova no cenário eleitoral. Inclusive, para a presidente Dilma Rousseff que atravessou todo o período do julgamento sem deixar que qualquer de suas discussões respingasse na sua administração e também na sua imagem.

Sem o mensalão e o tema corrupção para contaminar as discussões, governo e oposição precisariam achar caminhos próprios para atravessar o período eleitoral. Para o Palácio do Planalto, a estratégia seria a de tentar entregar obras, máquinas e equipamento no maior volume possível. E também atrair o máximo de aliados para o palanque oficial garantindo amplo tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

Para a oposição, tudo ainda era um mistério. A ideia original era tentar martelar em duas teclas já conhecidas. Ineficiência do governo, que tem dificuldades para fazer seus programas funcionarem adequadamente, e o baixo crescimento da economia. Apesar disso, os dois eixos ainda não tinham produzido qualquer efeito capaz de ameaçar a tranquilidade do governo em relação à reeleição da presidente Dilma Rousseff, líder em todas as pesquisas de intenção de voto apresentadas até agora.

O primeiro sinal que a blindagem do governo estava falhando foi a crise de relacionamento com o PMDB, seu principal aliado dentro do Congresso. Os peemedebistas ficaram muito insatisfeitos com o tratamento dado pelo governo federal na liberação de recursos orçamentarias prometidos e no espaço de ocupação de cargos acenado pelo Palácio do Planalto na reforma ministerial.

Faltou pouco para a crise virar rompimento, mas expôs uma fratura na relação com o PMDB. E, pior, pode servir de combustível para alimentar a crise política enfrentada pelo governo em relação a Petrobrás.

Porque foi justamente a sequência de más notícias envolvendo a empresa com denúncias de irregularidades que acabou trazendo de volta os fantasmas que assombraram o governo federal durante todo o processo do Mensalão.

Em duas semanas, o governo deixou de enxergar o cenário limpo do escândalo do mensalão para precisar dar satisfações ao Congresso e à opinião pública sobre negociações feitas pela estatal durante os governos petistas. No meio do tiroteio, viu a Câmara dos Deputados aprovar a criação de uma comissão externa para investigar a suspeita de pagamento de propina da empresa holandesa SBM Offshore para empregados da Petrobrás. A própria Dilma jogou mais lenha na fogueira ao ser obrigada a reconhecer para o Estadão que sua decisão de apoiar a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pela Petrobrás, foi baseada num parecer falho tecnicamente. E que se soubesse das cláusulas existentes no contrato não teria topado o negócio.

Para piorar tudo, apareceu o ingrediente policial para temperar toda a crise. O ex-diretor de refinaria e abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa acabou sendo preso na Operação Lava Jato da polícia Federal acusado de envolvimento em suspeita de lavagem de dinheiro. O ex-diretor participou diretamente da operação de compra da refinaria de Pasadena e tem grandes ligações com o meio político.

A primeira tentativa do governo para controlar o caso aconteceu com a demissão do diretor que deu o tal parecer falho que sustentou a compra da refinaria de Pasadena. O problema é que a falha de Nestor Cerveró foi registrada em 2008, segundo as explicações dadas por Dilma ao Estadão. Apesar disso, ele seguiu diretor da estatal até agora, sendo rifado apenas na semana passada, já por conta da pressão política e da opinião pública.

Com tantos elementos, a oposição tem certeza que terá apoio de governistas insatisfeitos, como os do PMDB, para instalar no Congresso uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a Petrobrás e, naturalmente, tentar desgastar a imagem de Dilma e do seu governo. Assim, antes mesmo que as cinzas do mensalão se apagassem, a corrupção volta a ser tema centrada discussão entre governo e oposição. Resta saber qual peso político isso terá de fato na disputa presidencial.