Voto às cegas

Humberto Dantas

04 de novembro de 2020 | 11h13

*Texto escrito por Luciana Elmais, sócia da Legisla Brasil, uma sociedade sem fins lucrativos que acredita no poder das equipes em transformar a política.

Quando investimos no mercado de ações temos que escolher as empresas que iremos apostar. A decisão é baseada na expectativa sobre a capacidade daquela empresa valorizar e gerar retorno financeiro para todos os acionistas. Diferente dos jogos de azar, esta aposta é delineada com base em estudos no mercado, indicadores da empresa e resultados anteriores. Existe, na maioria dos casos, uma longa e profunda análise sobre o mercado e a empresa em questão. Se com nossos investimentos fazemos toda essa diligência, porque não fazemos o mesmo com o nosso país?

Se aplicarmos este racional para o Poder Legislativo, podemos dizer que o investimento que fazemos é o nosso voto e o retorno esperado é a construção do futuro da nossa sociedade e eu arrisco dizer que que esta relação é ainda mais importante do que o nosso dinheiro.

Em um país com uma taxa de reeleição de 52% é se de se esperar que os mandatos reeleitos sejam aqueles que apresentaram o melhor desempenho na legislatura*. O que significaria que, a cada eleição todos os cidadãos analisam profundamente o que foi alcançado pelo parlamentar realizando uma comparação com as promessas de campanha apresentadas há 4 anos e o contexto local. Nesse modelo, os mandatos com alto desempenho resultam em reeleição. Todavia sabemos que as lógicas do mercado financeiro não se aplicam na política.

Você investiria o seu dinheiro em uma empresa apenas ouvindo as ideias de um CEO sem analisar nenhuma outra informação?

Pois é, hoje é isso que temos feito na política. Hoje, ao escolher nossos candidatos não temos preditores de sucesso e retorno do nosso voto. Para quem acha que mercado de ações é um negócio arriscado, peço que reflitam sobre o risco deste investimento tão precioso – o voto.

É certo que o Legislativo abriga diversos trabalhos invisíveis como articulação política, promoção de agendas e melhorias incrementais em projetos coletivos. Mas em todos estes casos, ainda assim é possível medir o invisível. No entanto, a falta de hábito de mensurar impacto e resultados – e torná-los públicos- no Poder Legislativo é tão grande que nossa sociedade desacredita que nossos parlamentares são capazes de fato de gerar impacto positivo na vida das pessoas. Por consequência, continuamos confortáveis em votar em ideias, em pessoas, deixando os projetos de lado. Ora, o Congresso Nacional tem nos mostrado cada vez mais como é um corpo capaz de produzir resultados concretos para a população. Está na hora de construirmos referências e cobramos resultados efetivos da política.

No geral, não sabemos quais são os objetivos e projetos concretos que serão implementados pelos nossos parlamentares. Não sabemos como eles irão compor a equipe que irá implementar estes planos. Nos tornamos, portanto, o investidor que aposta apenas no discurso do CEO.

Os poucos resultados e indicadores que debatemos são limitados e não refletem um trabalho parlamentar de sucesso. Seguimos acompanhando a presença em plenário, número de projetos de lei – apresentados e votados – e gastos do recurso público. Todos estes indicadores são insuficientes. Por exemplo, gastar pouco recurso com assessoria parlamentar pode parecer um bom resultado mas pode também representar uma equipe parlamentar insuficiente e incapaz de realizar o trabalho. Precisamos dar o próximo passo, começando com a mensuração efetiva de resultados e do impacto do trabalho destes mandatos no dia a dia. Afinal, como disse Peter Ducker, o que não pode ser medido não pode ser melhorado.

Cabe a nós cobrarmos nossos parlamentares pela transparência nos resultados de seus trabalhos. É assim que começaremos a diminuir o risco dos nossos votos.

Sim, dá trabalho, mas para construirmos o país queremos não basta exercemos a nossa cidadania e democracia a cada dois anos. As eleições de 2020 estão se aproximando e agora mais do que nunca precisamos de parlamentares com nortes claros e comprometidos. Para os que vêm à reeleição, olhar o trabalho que já foi feito pode ser um bom preditor de sucesso do seu voto na construção das nossas cidades. Para candidatos de primeiros mandatos está na hora de cobrarmos promessas de campanhas factíveis e concretas.

Que neste ano de crise paremos de investir o nosso voto às cegas.

* Dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) referentes à Câmara dos Deputados nas eleições de 2018.

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