Vereadores miram Brasília

Cláudio André de Souza

26 de janeiro de 2017 | 13h35

Após o cenário conturbado oriundo do processo que culminou no afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), os petistas têm revelado uma nova estratégia para a eleição dos presidentes das câmaras municipais: estabelecer chapas próprias para as disputas, sem dialogar com candidaturas que expressam mais chances de vitória. Isso revela um clima no partido de se afastar dos partidos que se posicionaram favoravelmente ao impeachment e que não caminharam com o PT nas eleições de 2016.

Vale ressaltar que existe uma “tradição” observada pela ciência política de que nas eleições para a presidência das câmaras de vereadores os partidos com as maiores bancadas colocam nomes para presidir as casas, o que dá somente um efeito simbólico às minorias de oposição ao Executivo municipal. Em geral, os partidos menores buscam fazer acordos para ganhar espaço na mesa diretora e nas comissões permanentes, o que gera benefícios no cálculo político de apoiar candidatos da maioria.

Nesse sentido, a estratégia do PT em nacionalizar mais esta disputa busca ter um sentido programático de debater questões nacionais, mirando o que acontece em Brasília. A partir de janeiro deste ano, o PT tornou-se oposição em quase todos os municípios brasileiros, como mostram pesquisas empíricas e fontes de jornalismo de dados, checando os níveis de adesão aos governos que foram vencedores nas urnas.

Nas principais capitais, o partido saiu da lógica do acordo para construir candidaturas próprias ou de apoio a outros candidatos da esquerda. Em Salvador, a vereadora Marta Rodrigues (PT) cumpriu a resolução do Diretório Municipal e tornou-se candidata debatendo com a Casa um conjunto de propostas voltadas, segundo ela, para a busca de representatividade, transparência e participação da sociedade[1]. Obteve somente um voto, sendo que outros dois vereadores do PT foram acusados pela militância do partido de terem votado no presidente eleito Léo Prates (DEM).

Em Porto Alegre, o PT apoiou a candidatura do vereador Professor Alex Fraga (PSOL), lançado pelo bloco formalizado pelo PT e PSOL. Foi reeleito o vereador Cassio Trogildo (PTB) para a presidência, por 28 votos favoráveis, sete contrários e a abstenção de Cassiá Carpes (PP)[2].

Em Belo Horizonte, os petistas lançaram a candidatura do vereador Arnaldo Godoy, que obteve cinco votos, mas viram um segundo turno tumultuado pela disputa entre os vereadores Henrique Braga (PSDB) e Dr. Nilton (PROS). Venceu o primeiro após a retirada do plenário dos apoiadores do seu adversário[3].

Em São Paulo, os petistas seguiram a tradição do diálogo e apoiaram a eleição do vereador Milton Leite (DEM), que recebeu 50 dos 55 votos. Isso gerou também uma crise na bancada do PSDB com o vereador Mario Covas Neto, recebendo apenas o seu voto na disputa[4].

No Rio de Janeiro, houve chapa única, levando à reeleição o vereador Jorge Felippe (PMDB), sendo que o PRB, do Prefeito Marcelo Crivella, conta com apenas quatro vereadores em um total de 51 cadeiras.

Em síntese, as composições partidárias para presidir as câmaras de vereadores dão o tom das estratégias dos partidos no âmbito parlamentar, o que indica que o PT tem feito escolhas em reconstruir o seu campo político, ouvindo as suas bases posicionadas na esquerda, mas ainda buscando dentro do cálculo eleitoral dialogar com os partidos que se alinharam ao impeachment. Sem uma candidatura com potencial do campo governista para duelar com o atual presidente Rodrigo Maia (DEM), o PT pode fazer da eleição para a presidência da Câmara dos Deputados um palanque favorável no contato com a sociedade civil, mas, sobretudo, na mobilização “programática” das suas bases com vistas a 2018. Isso implica candidatura própria ou de um partido aliado. O abandono desta estratégia pode ser inerente à busca de mais espaço na estrutura da Casa. Este dilema se repetirá no Senado.

Independentemente da posição a ser tomada, o partido levará em conta o que vai dar mais protagonismo à possível candidatura do ex-presidente Lula, considerando que as eleições legislativas (o apoio) contam na costura de diálogos futuros (2018) com lideranças partidárias e regionais. Assim como devemos ficar atentos ao que acontecerá junto ao PT nestas eleições para liderar o Legislativo, devemos olhar com atenção a relação PMDB-PSDB dentro da votação e nos bastidores.

[1]  Ver mais informações no link:  

[2] Mais informações no link:

[3] Link sobre a eleição: http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2017/01/01/interna_politica,836425/em-sessao-tumultuada-henrique-braga-e-eleito-presidente-da-camara-de.shtml

[4] Link: 

Cláudio André de Souza é mestre em Ciência Sociais pela UFBA, doutorando pela mesma instituição e Professor de Ciência Política da Universidade Católica do Salvador (UCSAL) e da Faculdade Baiana de Direito.

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