Três dicas de educação política para mandar no grupo da família

Eduardo Seino

09 de março de 2021 | 19h46

*Texto escrito em parceria com Danilo Forlini, doutorando e mestre em Educação pela UNESP de Araraquara e graduado em Ciências Sociais pela mesma instituição.

 

O título “à la Buzzfeed” é para chamar a sua atenção para expressões e frases feitas em evidência nos tempos recentes, que possuem uma série de distorções e desinformações. O texto, portanto, é um exercício de educação política, uma temática que alguns tentam colocar de escanteio em nosso cotidiano.

Há amplo consenso entre especialistas que precisamos de um tipo de educação específica para a democracia. Porém, mesmo com muita informação qualificada disponível, é costumeiro diversas confusões sobre a política continuarem aparecendo nos almoços de domingo e, agora, nas conversas virtuais. Selecionamos alguns tópicos que se fazem presentes com frequência nas chamadas correntes de WhatsApp, mensagens viralizadas etc., para tentar vacinar o leitor contra a desinteligência.

 

1. Mas o presidente não consegue governar!

Ouvimos muito dos apoiadores do atual presidente que ele tem dificuldades para colocar suas ideias em prática por ser “atrapalhado” pelo Congresso, governadores ou Supremo Tribunal Federal. A estratégia dessa retórica é simplista: eximir responsabilidades para esconder incompetência. Onde está o erro dessa linha de argumentação? Faz parte das atribuições do presidente conseguir construir o caminho para aprovar suas agendas em conjunto com os demais representantes eleitos, sem ferir a Constituição para que não ocorram interferências do STF. Em uma democracia, as difíceis negociações, cessão de interesses e composições de diferentes partidos políticos nos cargos fazem parte da vida política. É saudável e esperado que, no processo democrático, exista oposição e a necessidade de escutar múltiplas vozes. Do contrário, estaríamos mais próximos de um regime autoritário. Ou seja, se o chefe do Executivo não consegue implementar a sua plataforma, a incapacidade é essencialmente dele.

 

2. Coisa de comunista.

Chamar adversários políticos de comunistas, incluindo-os em uma espécie de lista amaldiçoada, tornou-se outra estratégia recorrente em discussões políticas intelectualmente preguiçosas ou mal intencionadas. As interpretações superficiais (para não dizer deliberadamente manipuladas) tentam convencer uma parte da população que recebe cotidianamente notícias falsas em seu celular de que qualquer tipo de política promovida pelo Estado significa uma tentativa de implantar o comunismo. Assim, tudo vira comunismo: medidas sanitárias, discussões de gênero, políticas redistributivas, vacinas, proteção ambiental, políticas afirmativas e por aí segue.

Por isso, em caso de dúvida, recorrer aos dicionários é sempre uma atitude inteligente. Se você fizer isso, buscando a palavra comunismo, poderá encontrar algumas perspectivas diferentes, mas verá, em síntese, que se trata de um ideal político que prevê uma organização socioeconômica baseada na propriedade coletiva dos meios de produção a partir da extinção da propriedade privada, das classes sociais e do Estado. O ideário comunista é usualmente associado ao sociólogo e economista Karl Marx, embora existam muitos outros teóricos do comunismo.

Sendo assim, percebemos que a maior parte dos temas que ganham o selo forçado de comunismo nada ou pouco tem a ver com este ideal político. Por exemplo, a parcial restrição da liberdade de ir e vir justificada pela primazia do interesse público relativo à saúde coletiva não guarda nenhum tipo de relação com o comunismo.

 

3. O mal está na política. Ninguém presta.

O Índice de Confiança Social (IBOPE 2019) é um dos vários indicadores que aponta que a população brasileira confia mais em instituições como as forças armadas, polícia federal e nas igrejas do que no Congresso e nos Partidos Políticos. Sabemos que muitos atores do sistema político minam constantemente a confiança da sociedade, mas o mesmo seria aplicável à polícia ou às igrejas, por exemplo. Em outros termos, condutas errôneas estão sujeitas a acontecer nas mais diversas esferas da vida e não exclusivamente no mundo da política. Desse modo, faz sentido demonizar aquilo que deve ser a espaço de negociação das questões públicas, de diálogo, de possibilidade de conquista e exercício de direitos? Ou faz mais sentido se apropriar das discussões, informar-se a partir de fontes variadas (não apenas de vídeos e memes do WhatsApp) e ocupar os ambientes de construção coletiva?

Se você se sentiu provocado a partir das três dicas acima, aí vai uma dica-bônus: ao debater estes assuntos com quem quer que seja, reflita se esta pessoa está disposta ao diálogo ou se as convicções dela já estão consolidadas. Do contrário, serão apenas monólogos alternando turnos. Atente-se ao modo de fazer, pois o cuidado na abordagem é tão importante quanto o conteúdo. O bom debate, mais do que cristalizar respostas, gera perguntas. Encerramos, portanto, com uma: seria a Educação Política uma das vacinas possíveis para combater esta epidemia de desinformação?

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