Sonho ou realidade?

Bruno Souza da Silva

10 Julho 2018 | 17h25

Era uma vez, um lugar distante, onde os cidadãos possuíam os melhores políticos do planeta. Nele, todos sabiam da importância do voto e as estatísticas não apontavam para quase 50% dos eleitores que simplesmente se esqueciam do representante escolhido para o Legislativo nacional pouco tempo depois de ocorrida as eleições. Ademais, o povo era tão consciente politicamente que sempre se preparava para a definição dos cargos proporcionais com o mesmo afinco que escolhiam presidentes, governadores e prefeitos. Deputados eram sempre os primeiros a serem escolhidos e os últimos a serem esquecidos! Afinal de contas, o Legislativo é o coração de uma democracia, não é mesmo? E o formato do sistema político, independente se for presidencialista ou parlamentarista, exige uma atuação legislativa responsável, fiscalizadora e promotora de leis que visam ao desenvolvimento social, além do Legislativo ser o espaço de sustentação governamental em ambos.

Mas esse lugar era ainda mais incrível! Como as eleições nacionais sempre acontecem em ano de Copa do Mundo e as municipais em ano de Olimpíadas, o mesmo espírito de tolerância verificada nos televisores em meio às transmissões dos jogos que mesclam torcedores de diferentes nacionalidades que aparecem confraternizando, e não se odiando, acontecia também no debate político. Tanto dentre os candidatos quanto entre os eleitores, principalmente em suas redes sociais. Polarizações artificiais como coxinhas x mortadelas e azuis x vermelhos nem sequer ganhavam espaço na grande mídia, afinal de contas, esse lugar de dimensões continentais e demandas por políticas públicas dos mais diversos tipos e variações regionais não pode ser tão simplório assim.

Era realmente um país admirável. Para termos uma ideia, a representação feminina nas casas legislativas, em todos os níveis federativos, jamais atingia a faixa dos 9 a 13% do total de representantes. Nunca! Afinal de contas, o incentivo para a participação feminina na política era constante e os partidos financiavam campanhas desse sexo com a mesma quantidade de recursos e estrutura de campanha que os homens. Parlamentares com mais de dez mandatos legislativos inexistiam, e ninguém se preocupa em enveredar seus familiares na política profissional. Nunca! Encontrar graus de parentesco dentro do Congresso Nacional era como encontrar agulha no palheiro. E a relação entre representantes e representados então? Digna de dar inveja a qualquer relato romântico da participação direta na ágora clássica, cujo espaço da discussão pública era formado por disputa de oratórias e recursos retóricos para convencer os cidadãos sobre os destinos da sua comunidade. Jamais se verificavam níveis estruturais de corrupção, debates marcados pelo corporativismo ou poucas empresas, que até ontem,  desbancavam o jogo eleitoral por financiarem campanhas bilionárias.

Esse lugar era tão espetacular que até os vereadores procuravam fazer a diferença localmente, mesmo com pouco espaço para legislar, afinal de contas tinham clareza da sua capacidade fiscalizadora e convertiam em recurso positivo a proximidade com os eleitores para experimentarem ativar a democracia por meio de mandatos mais colaborativos e participativos, incentivando a mudança em traços da cultura política nacional a partir da sua atuação local ao desincentivar a lógica dos pequenos favores. Ah, que lugar! Só tenho um medo: vai que é sonho ao invés de realidade…