Sobre Eleições, Whatsapp e Fake News

Araré Carvalho

05 Junho 2018 | 11h46

A greve dos caminhoneiros que parou o país na última semana, trouxe à berlinda vários temas e debates. Um deles ganha especial relevância tendo em vista seus possíveis impactos nas eleições de outubro desse ano. O aplicativo de troca de mensagens para celulares, Whatsapp, se mostrou fundamental na mobilização e organização dos caminhoneiros. Através dos grupos de conversa, que abrigam no máximo 256 membros, foi organizada a paralização por todo o país.

Se por um lado facilitou a ação dos motoristas, por outro dificultou a negociação com o governo, visto que os vários grupos de Whatsapp tinham suas próprias lideranças, e muitas vezes pautas específicas. Outro dado importante, e que foi apontado por reportagem da BBC, que passou sei dias participando de grupos de troca de mensagens dos caminhoneiros, foi a grande difusão de notícias falsas (fake News). Diferentemente de redes sociais como o Twitter ou o Facebook, as mensagens no Whatsapp atingem um número limitado de usuários. No entanto, o efeito da difusão nesse aplicativo ocorre em cascata. Vai de grupo em grupo, e tomando dimensões que fogem ao controle do emissor original.

Segundo estudos da Reuters Institute e da Universidade de Oxford, os aplicativos de trocas de mensagens vêm ganhando protagonismo em detrimento das redes sociais como Twitter e Facebook. Segundo essa pesquisa promovida pela Digital News Report, 66% da população brasileira usa as redes sociais como principal fonte de informações, sendo o Whatsapp a segunda maior referência do brasileiro quando busca notícias on-line (no Brasil, 60% da população, (120 milhões de pessoas) usam o aplicativo e 46% usam esse aplicativo para se informar).

Tendo em vista esses dados, o aplicativo, popularmente chamado de “Whats” ou “Zap”, tem tudo para ter um papel de grande relevância nas eleições que se aproximam. Assessorias e apoiadores de candidatos já perceberam que essa ferramenta é fundamental para difusão de conteúdos positivos, mas tem se mostrado efetivo mesmo na propagação de notícias falsas, de preferência sobre os adversários.

Diferentemente de Facebook, Twitter e Youtube, o Whatsapp ainda não apresentou políticas no sentido de coibir a difusão de notícias falsas através do seu aplicativo.

É certo que a disseminação de notícias falsas não é um fenômeno exclusivo da era digital, mas as proporções e rapidez com que essas notícias fluem são inéditas. Ainda que o meio/aplicativo seja neutro, o uso que se faz dele não é. O fenômeno do mau uso dessas ferramentas é entendido, em partes, lançando mão do conceito de “pós-verdade”. Segundo esse conceito, “fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (English Oxford Living Dictionaries, 2016). Assim: se a notícia é a favor de um político que o cidadão apoia, existe chances de ele considerar a questão verdadeira. O mesmo se aplica quando a suposta notícia faz alusão negativa a políticos considerados adversários. Há uma tendência maior de compartilhamento de notícia falsa na medida em que ela concorda com as convicções do eleitor – e aqui o estrago se completa.

Num país dividido politicamente, movida a ódios, a difusão de notícias falsas encontra terreno fértil. Uma campanha baseada na preocupação de derreter reputações e/ou se defender de notícias falsas tende a deixar em terceiro plano a árida seara de propostas concretas de nossos representantes. Assim, as notícias falsas desvirtuam o debate de questões centrais, orientando discussões para determinados temas, geralmente de cunho moral e privado, atacando adversários políticos e criando rumores.

Com este tipo de manipulação, pode se criar a falsa sensação de amplo apoio político a determinada pauta, orientação política ou figura política. As notícias falsas podem alterar o rumo do debate político, disseminam teorias conspiratórias e geram desinformação.

Ações de órgãos públicos e privados como o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a Polícia Federal e as agências de checagem (fact checking) tentarão atenuar os efeitos das fake news nas eleições desse ano, mas pela amostra que tivemos nos últimos dias, a tarefa será árdua. A batalha política passará também pela disputa do que é verdade, nem que seja a “sua verdade alternativa”. A conferir!