Se precisar a gente desenha

Humberto Dantas

21 de dezembro de 2020 | 11h58

Rachadinha não é um crime novo na política brasileira. Faz parte, infelizmente, de um conjunto imensurável de práticas históricas que distorcem o sentido de mandato, serviço público, parlamento etc. No limite, algum alucinado vai dizer que se trata de uma forma de um parlamentar multiplicar a capacidade de atuação de seu gabinete. Esqueça: por mais que o parlamento seja o espaço da convicção, a lei é o limite para isso. E se comissionados já flertam com o que existe de mais informal em termos de trabalho, receber “por fora” é trágico. Mas nem toda rachadinha é utilizada para multiplicar assessores. Ela também serve para enriquecimento ilícito e toda sorte de destinos dados ao dinheiro capturado do servidor público. Consegue ler? Público. Servidor público a serviço de um mandato, ou de um parlamentar, mas dentro de regras e consensos que se pretendem universais naquele parlamento para o serviço público. Vamos à parte 2.

Mensalão não é um crime novo na política brasileira. Chega a ser inocente ou mal intencionado quem imagina que isso começou no dia 01 de janeiro de 2003 e terminou em 01 de janeiro de 2011. Isso não é exclusividade do governo Lula. Acredita que seja? Sabe de nada, inocente. Pois vamos lá: essa prática de pagamento de mesada sistemática para parlamentares aprovarem agendas do Poder Executivo se repete no tempo e nas demais esferas de poder. Generalizar de forma absoluta seria leviano, mas sob apelidos diferentes o fenômeno que dá início a esse parágrafo, infelizmente, é a coisa mais comum que existe. Triste. Infelizmente.

Parlamentares que por vezes não se alinham de maneira criminosa ao mensalão de um titular do Executivo talvez vivam no mundo da ilegalidade, da informalidade e da multiplicação da renda às custas de rachadinha. Assim, peguemos o caso de Fabrício Queiroz – o amigo assessor, ou seja, uma espécie de Robin do Mal. Ele confessou. Isso mesmo: admitiu. Falou. Disse. Citou. Apontou que era o articulador da rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Pronto. Está posto. Existia o crime e ele se dizia o articulador. Por medo, respeito, devoção, ou seja lá o que, foi além e mandou: Flávio não sabia, assim como desconhecia a prática o chefe de gabinete. Quem conhece um gabinete está cansado de saber: isso é impossível. Mas você tem o direito de achar que é possível. Assim, mudemos de página.

Domínio de Fato foi a tese utilizada pelo então ministro do STF, Joaquim Barbosa, para punir de forma absoluta uma série de criminosos condenados na Ação Penal 470, vulgarmente conhecida como Mensalão. Foram dezenas de pessoas que mancharam, de acordo com os elementos do processo, a história do PT, de seu governo federal, de seu super-herói e de seus aliados. Uma tragédia para quem endeusava Lula, e uma mentira para quem ainda o idolatra. Esqueça disso. O fato é: o julgamento ocorreu e José Dirceu, por exemplo, foi incriminado porque para o então ministro do STF e para os seus pares que votaram em seus argumentos, era impossível um ministro da articulação política – Chefe da Casa Civil – não saber o que estava ocorrendo ali. Conclusão: se Dirceu não tinha como não saber do Mensalão, como o chefe de gabinete e o parlamentar não sabiam das rachadinhas Queiroz? Bom… Há quem diga que Dirceu é o guerreiro do povo brasileiro, assim como você tem todo o direito de achar que Flávio é o injustiçado filho do Mito. O argumento parece frágil, mas ele é seu e com ele você faz o que quiser. Mas que fique claro: quantidade de acusações do MP é tão grande que a rachadinha está quase vocacionada a virar Grand Canyon.

Pois bem, vamos a esse personagem. O Canyon? Não! O Mito. Ele mesmo: o Mito. Que disse algo, assim como Queiroz falou. De acordo com o Mito, depois de meses sendo indagado, os R$ 89 mil depositados na conta da primeira-dama eram, na verdade, para ele: Jair Messias Bolsonaro, o sujeito eleito para livrar o Brasil da bandalheira. O cara que há alguns meses disse que “a corrupção no meu governo acabou”. E foi mais longe ao afirmar: “Queiroz é meu amigo, pagava contas para mim. Depositou esse dinheiro na minha conta, na verdade na conta da minha esposa. Faz isso, normalmente. Paga contas, faz mais de dez anos. E 89 mil divididos por dez anos dariam menos de 750 reais por mês. Isso não é corrupção.”

Sinto muito, Mito: é. E confessa. Como diria Tim Maia: “devo admitir que sou réu confesso”. Corrupto. O senhor está prestes a ser corrupto confesso. Mas fique tranquilo, pois durante o julgamento do Mensalão Lula fez o mesmo ao afirmar que “campanha sem Caixa 2 era hipocrisia”. E entre a declaração e a sua prisão se passaram anos, e a razão do encarceramento do ex-presidente foi outro. Assim: relax.

Mas uma coisa é fato: o senhor havia confessado que o sujeito promotor da rachadinha depositou 89 mil reais em dinheiro na conta de sua esposa. Resultado: quase um corrupto confesso. Assim como o é, por exemplo, seu ministro Onyx. Mas segundo seu ex-ministro Moro, basta pedir desculpas. Pergunte para Onyx. Foi o que ele fez. Assumiu ser corrupto numa rádio, e recentemente depositou uma grana nos cofres do Brasil para limpar a própria ficha. Está vendo? É fácil. Quem sabe Queiroz não paga esse boleto?

Para encerrar: note que não foram apenas 750 reais por mês em 10 anos. Vocês se conhecem a mais tempo que isso. E ele pagava suas contas, como você mesmo disse. Os 750 mensais, uma espécie de mensalinho, foi apenas o montante descoberto na conta de sua atual esposa. Mulher você teve várias. Filhos parlamentares outros tantos. Queiroz perambulou. E fecho aqui: e as contas? Quais foram pagas? Aos 750 mensais não deixe de somar as contas pagas.

E a coisa devia funcionar mais ou menos assim, segundo aspectos trazidos pelos próprios argumentos do Ministério Público: gabinetes da família mitológica empregavam figuras que fantasmagoricamente recebiam dinheiro sem trabalhar e o devolviam para um articulador. Um amigo dos familiares, lotado em algum desses gabinetes, arrecadava esse dinheiro, assim como arrebanhava boletos mitológicos e os pagavam. Quem não quer um amigo assim? Ninguém preocupado com a lei e que possua um mandato de representação do interesse público. Mas se você tem esse espírito de bicheiro, ou de mafioso, vive reclamando que o mundo te persegue, e que é injustiçado, você, que acredita em Mito, pode achar isso a coisa mais normal do mundo. E ele, o Mito, pode ter dito o que disse para proteger seu filho. Algo ao estilo: “dá essa corda da forca aqui, pois ninguém vai enforcar meu filhote”. Dito isso, passa a corda no próprio pescoço e pula. Isso! O famoso “sincericídio”.

Assim, a partir dessa junção, até mesmo você, mitomaníaco, que continua achando que tudo é uma farsa, só não se vista de vermelho. Não coloque a boina e a camiseta do Che, tampouco grite que Queiroz é o guerreiro do povo brasileiro. Mas pode começar a acreditar nas mesmas fantasias que critica, restando apenas reconhecer a inversão do polo ideológico. Isso! Você não é um alucinado da esquerda radical que tanto odeia, mas apenas parte de um rebanho que talvez se sinta mais confortável se eu desenhar aqui o que acabei de escrever… Prefere?

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