Resultados eleitorais, Republicanos e Igreja Universal

Resultados eleitorais, Republicanos e Igreja Universal

Marcela Tanaka

17 de dezembro de 2020 | 20h13

Em outubro deste interminável, triste e exaustivo ano de 2020 escrevi aqui mesmo um texto bastante similar, apontando quem eram os postulantes a levar o nome de Deus para o Parlamento. Há dois meses perguntava se o truco valeria a pena, se o concorrente não gritaria um “SEIS” do alto de seus pulmões. Metáforas de mesa de carteado à parte, hoje trago os resultados das eleições municipais de 2020.

Decidi revisitar o tema porque os resultados são interessantes e apontam para a necessidade de cautela ao tomar como pressuposto a força do nome cristão como símbolo de resultado eleitoral positivo. Vejamos o por quê. Em primeiro lugar, de todos os candidatos que utilizaram o nome de urna remetendo a alguma ideia confessional[1], pouquíssimos (as) foram eleitos(as). Ao todo, quase 7.500 nomes confessionais concorreram entre prefeitos e vereadores, apenas 398 foram eleitos, contabilizando 5,4% do total de candidaturas. O Gráfico 1 abaixo mostra os resultados por cargo. Dos 72 prefeitos que concorreram, apenas 6 foram eleitos (8,3%), todos do sexo masculino, de partidos de direita, de pequenos municípios e nas regiões Norte e Nordeste do País, sendo 1 nos estados da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Tocantins e 2 no estado do Pará. Os resultados para as câmaras de vereadores reflete um cenário parecido, beirando a taxa de 5,3% de sucesso eleitoral. O perfil, contudo, é mais distinto entre eles. Para os parlamentos locais, os eleitos se espraiam em quase todo o leque partidário, o que inclui partidos de esquerda e centro-esquerda tais como PC do B e PT. Também encontram-se em municípios de porte pequeno, médio e grande, incluindo 7 capitais: Salvador, Goiânia, Cuiabá, Curitiba, Recife, Aracaju e Palmas.

Ou seja, com base nesses dados apresentados é possível observar que nem 10% dos candidatos que utilizaram nomes confessionais foram eleitos. Isso aponta para o que argumentamos anteriormente de que a viabilidade dessas candidaturas está  também associada a outros fatores que superam a utilização de um nome confessional. Ao passo que andaram em conjunto o crescimento da participação pentecostal e o aumento do número de candidaturas religiosas, os resultados mostraram que esse atalho de identificação não revela uma ligação direta entre nome e gabinete.  Para irmos além, trouxemos o caso do Republicanos. Tradicionalmente estudado em conjunto com sua ligação com a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), o Republicanos foi um dos partidos que mais cresceu nos legislativos municipais este ano, para além disso, mostramos aqui que esse crescimento se deu lateralmente à essa conexão como braço político da Universal.

Com uma taxa de sucesso de 28% para as prefeituras e 11% para o Legislativo, o partido foi capaz de emplacar um sucesso maior que a média dos candidatos confessionais, o que indica que o partido tem desenvolvido estratégias que extrapolam o viés religioso. Dois exemplos ilustram esses resultados nas prefeituras. Um deles foi a derrota de Marcelo Crivella (Rio de Janeiro/RJ), ex-bispo da Universal e parente direto seu fundador Edir Macedo. O outro exemplo foram as vitórias de Delegado Pazolini (Vitória/ES) e Dário Saad (Campinas/SP). O contraste entre esses resultados em grandes cidades do Brasil é que o perdedor do pleito foi exatamente o candidato ligado diretamente à Universal, enquanto os outros dois candidatos buscaram uma candidatura mais próxima às coligações e alianças locais. Outro dado interessante é que nem todo candidato ligado à Universal concorre com o nome confessional e nem todo confessional é da Universal. Sabemos que a Igreja Universal utiliza sua estrutura para organizar a competição política, uma das formas de identificar quem são os candidatos da igreja é pelo número utilizado. Nas eleições de 2020, o número comum para o legislativo municipal entre eles foi o 10.123. Ao todo, 1.504 candidatos concorreram com o número, destes, 26,6% foram eleitos. Apenas 26 desses 1.504  utilizaram a identificação “Pastor” no nome de urna e entre eles, 9 foram eleitos (34% de taxa de sucesso).

Em resumo, buscamos evidenciar que a despeito do crescimento do número de candidatos que utilizaram nomes confessionais, o sucesso eleitoral não foi tão expressivo. Além disso, muito se chamou a atenção para o crescimento do Republicanos neste último pleito, muitas vezes associado ao importante aliado político que é a IURD. Contudo, mostramos que o resultado do Republicanos extrapola a capacidade política da Universal, ainda que ambos sigam trabalhando de forma muito próxima.

[1] Aqui separamos todos os nomes de urna que começavam ou terminavam com Pastor, Irmão, Bispo, Missionário, Apóstolo, Padre e Reverendo, assim como suas respectivas flexões de gênero igualmente à metodologia utilizada no texto anterior.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.