Que tipo de hacker é o seu parlamentar?

Lucas Ambrózio

30 de julho de 2015 | 11h51

Um dos princípios do parlamento (Câmara de Vereadores, Assembleia Legislativa, Câmara Federal e Senado) é representar a plural sociedade de um território. Por sua vez, a capacidade de representar advém da convivência com quem representa. E para conviver é necessário que representante e representado falem a mesma língua. É aí é que está o problema: quem entende o que um parlamentar faz?

Parlamentares e suas casas legislativas podem utilizar esta potencial dissonância para atuar às escuras ou para adotar ações que visem aumentar a compreensão das pessoas sobre política. Neste sentido a atuação do parlamentar pode ser comparada à de um hacker. O hacker é aquele que, ao apropriar-se da técnica, adentra um sistema aparentemente hostil, decifrando-o. Ele pode, assim, alcançar um benefício para si (até mesmo ilegal), ou ao contrário, abrir o código, tornando-o transparente e acessível para que outros possam aprimorá-lo. É esta última a idéia por trás de toda a lógica de softwares livres, por exemplo. É a lógica da inteligência coletiva frente à apropriação privada do conhecimento, tão cara ao mundo dos negócios e ainda mais à vida democrática.

A forma com que o parlamentar hackeia a política pode, assim, engendrar novas redes de compartilhamento de saber e construção política ou mesmo ativar redes existentes. Os parlamentares são hackers da política institucional, mas há cidadãos que são hackers da política não institucional. Política não é, pois, só o que os políticos fazem, é, sobretudo, a prática da interação com o outro em busca de objetivos comuns.

Uma recente pesquisa intitulada “Sonho Brasileiro da Política” buscou mapear o que pensam e o que fazem os jovens brasileiros em matéria de política. Entre outras coisas, a pesquisa apontou para um perfil de jovem que apesar de ser minoria (em torno de 8%) é altamente mobilizador e protagonista de diversas práticas políticas (das mais distintas e autorais, indo muito além da política institucional). Segundo a pesquisa eles podem ser entendidos como hackers da política, pelo seu papel de desafiadores do status quo e de transformadores de distintas realidades. Um jovem que busca codificar o mundo a sua volta e reinventá-lo a partir de sua interação com o outro. Um ator que é um curioso por essência, tem sede de transformação e se engaja em ações com resultados tangíveis.

Abrir o código da política institucional para que mais pessoas se apropriem e possam interagir com ela no seu dia-a-dia é fundamental para democratizar as instituições. É a base da atuação parlamentar empoderadora do demos (povo). Do contrário, política continuará a ser percebida pela sociedade como o que os políticos fazem. Nestes 30 anos de reinvenção da democracia brasileira, construímos e fortalecemos o primeiro pavimento da vida democrática: as instituições. Resta-nos, agora, estudar a construção para consertar as rachaduras ao mesmo tempo em que temos o desafio de ocupar a casa de gente.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.