Quando o boa noite no zap não é do grupo da família

Carolina de Paula

11 Dezembro 2018 | 15h10

Qualquer pessoa com uma conta no aplicativo mais popular de mensagens no Brasil, o WhatsApp, está acostumado a participar de uma série de grupos por lá: tem o grupo dos amigos da faculdade, amigos do colégio, da família, da ginástica, o grupo de trabalho. Alguns servem para as tias desejarem diariamente “boa noite e dorme com deus, família”, outros para que saibamos as últimas fofocas daquela amiga que estudou conosco lá na sétima série do fundamental. Há grupos que exercem impacto bem mais significativo nas nossas vidas, são geralmente aqueles de trabalho. Semana passada, um desses grupos ganhou protagonismo nacional: o “Bancada PSL 2019”. E veio a público do mesmo jeito que nós estamos acostumados a fazer o tempo todo, através de prints das conversas. Para o cidadão interessado no comportamento da segunda maior bancada da Câmara dos Deputados eleita em 2018, o episódio é um prato cheio, vejamos três aspectos que ele nos faz pensar.

(1) A excentricidade e a informalidade da comunicação da bancada da extrema-direita recém-eleita. A “confusão” no grupo, iniciada na noite do dia 06/12, tinha motivação bastante comum, intrínseca a qualquer grupo/partido com expressivo número de membros, que é a definição de lideranças na Câmara e no Senado. Sabemos que a nova legislatura só começará em fevereiro de 2019, mas desde o final do pleito os partidos/bancadas se reúnem para que essas decisões sejam tomadas. Diálogos com partidos aliados são costurados desde já, até aí tudo normal e dentro do que estamos acostumados a acompanhar via imprensa. Contudo, a novidade é que agora assistimos em tempo real as minúcias dos diálogos, o bate-boca, e a existência de divisões dentro de uma bancada sequer empossada. E assistimos não somente porque os prints vazaram para a imprensa, mas porque os principais envolvidos nas farpas, de um lado o deputado federal e filho do presidente eleito Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, e do outro, a jornalista e recém eleita deputada por São Paulo, Joice Hasselmann, levaram a continuação do acalorado debate para o público, do modo enfático que gostam de atuar em seus populares canais no Twitter. Sugiro que acompanhem, está tudo registrado;

(2) O papel da família Bolsonaro na articulação do novo Congresso. Os prints vazados sugerem que veremos um dilema bastante concreto, originado pelo modo que esses neófitos foram eleitos: o peso da “carona” de Jair Bolsonaro, que nitidamente favoreceu a votação da bancada do PSL, e a autonomia desses favorecidos tanto na formação das bancadas e articulações quanto em decisões que terão que tomar sobre os projetos encaminhados pelo Executivo. Como se não bastasse, há o deputado Eduardo Bolsonaro, que em 2019 estará no Senado, e promete, como as conversas vazadas sugerem, utilizar a cartinha do “meu pai disse e me autorizou” no momento que lhe for conveniente.  Decorre daí que um grupo mais autônomo poderá ser criado, como Joice Hasselmam já sugeriu, convocando inclusive o presidente da legenda, Luciano Bivar, para a mesa de discussão. Sem dúvida já existe um racha na bancada e que será aprofundado conforme projetos e temas polêmicos foram trazidos para o novo Congresso;

(3) A autonomia do mandato. Analistas interessados na representação política costumam discutir qual peso o sistema eleitoral proporcional de lista aberta, como é o nosso para eleger os membros da Câmara dos Deputados, traz para o comportamento dos parlamentares. Afinal, são eleitos por seus próprios esforços, já que a definição da ordem da lista não é feita previamente pelo partido, e a eleição depende, em grande parte, do número de votos do candidato. O nosso episódio do zap revela que os atores envolvidos são todos campeões de votos, Hasselman é a mulher mais bem votada da história da Câmara, assim como Eduardo Bolsonaro, e ambos fazem questão de explicitar isso em suas biografias nas redes sociais. Se o primeiro é fiel ao seu pai e seu staff militar, a segunda já deixou claro que “não aceitará ordem de generais”, em nítido recado ao protagonismo do senador eleito, também por São Paulo, Major Olimpío, que compõe a ala de militares da bancada. Hasselman, explorou ao longo da campanha a auto representação de “Bolsonaro de saias”, mas faz questão de afirmar agora que sempre circulou por Brasília e tem sua própria rede de apoio. Se ficará isolada ou conseguirá reunir nomes que pensem como ela somente o passar dos dias – já que tudo acontece numa velocidade impressionante – dirá.

O episódio deixou bastante escancarado, ao menos no que depender da extrema-direita do Congresso, que a política de bastidores estará cada vez mais nua e crua, aos olhos do público atento às redes sociais. Qual o impacto disso para o processo legislativo e para a governabilidade? Ainda não sabemos, mas que venham os prints!