Presidenciáveis parlamentares: o discurso, o debate e a experiência

Humberto Dantas

14 Agosto 2018 | 16h31

O Brasil tem, até o momento, 27 candidatos às eleições nacionais. Chamo aqui de “eleição nacional” o pleito em que escolhemos quem ocupa a Presidência e a Vice-Presidência da República. Ao todo são 13 chapas, sendo que aquela encabeçada por Lula tem, em tese, três componentes. O que legalmente não é possível se explica pelo fato de que o ex-presidente deverá ser impugnado, Fernando Haddad ocuparia seu lugar e, no posto de vice, que hoje está com o ex-prefeito de São Paulo, a gaúcha Manuela D’Ávila (PC do B) tomaria acento.

Nesse total de políticos, encontrei seis atuais parlamentares:

-Kátia Abreu (PDT) – senadora pelo Tocantins e vice de Ciro Gomes.

-Ana Amélia (PP) – senadora pelo Rio Grande do Sul e vice de Alckmin.

-Álvaro Dias (PODE) – senador pelo Paraná e candidato ao Planalto.

– Jair Bolsonaro (PSL) – deputado federal pelo Rio de Janeiro e candidato ao Planalto.

-Cabo Daciolo (PEN) – deputado federal pelo Rio de Janeiro e candidato ao Planalto.

-Manuela D’Ávila (PC do B) – deputada estadual pelo Rio Grande do Sul.

Além desses, ao menos oito políticos envolvidos na disputa federal foram parlamentares em suas vidas. Seis candidatos ao Planalto:

-Ciro Gomes (PDT) – foi deputado estadual e federal (CE).

-Alckmin (PSDB) – foi vereador (Pindamonhangaba), deputado estadual e federal (SP).

-Henrique Meirelles (MDB) – eleito deputado federal (GO) em 2002, não assumiu.

-Eymael (DC) – foi deputado federal (SP).

-Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – foi deputado federal (SP).

-Marina Silva (Rede) – foi vereadora em Rio Branco, deputada estadual e senadora (AC).

E dois a vice:

-Germano Rigotto (MDB) – foi deputado estadual e federal (RS).

-Eduardo Jorge (PV) – foi deputado estadual e federal (SP).

Note a riqueza dessas carreiras. Veja a quantidade de políticos que olham para aquilo que chamamos de cargo político máximo num sistema presidencialista, ou para seu substituto imediato e verifique como a experiência parlamentar é basilar e relevante. Dos 27 listados, mais da metade teve envolvimento direto com o parlamento ou obteve uma bem-sucedida iniciativa em eleição parlamentar – caso de Henrique Meirelles, que preferiu assumir o Banco Central no governo de Lula e abriu mão do mandato conquistado, de deputado federal pelo PSDB goiano. Considere o fato de que parte dos outros 13 políticos podem ter tentado ou conquistado algum mandato parlamentar que escapou de um olhar menos acurado.

A despeito de tal aspecto, a provocação central aqui é: quem foram esses parlamentares? Do interior do Legislativo, o que eles enxergaram da política? Como viram o Poder Executivo? O que pediram? O que conseguiram? O que negociaram com prefeitos, governadores ou presidentes? Não quero saber sobre o que legislaram e, tampouco, o quanto fiscalizaram, isso o jornalismo já tratou de mostrar. Quero saber a visão que tiveram, e têm, dos parlamentos. E esse é o ponto para começarmos a questionar as promessas que fazem para o Brasil, ou os discursos que apresentam para o país. Como figuras que ocuparam os mais relevantes postos parlamentares do país podem se concentrar em prometer tantas aberrações? No debate realizado pela BAND, um espetáculo deprimente, até reforma política apareceu. Teve candidato que só falou em primeira pessoa. O cargo presidencial não é algo absolutista, mas sim um exercício de liderança onde o ganho coletivo é essencial, e o parlamento é fundamental. Estamos longe disso.

Perceba: uma dessas duplas será eleita e governará o país. Esperamos que ao menos por quatro anos, pois estamos cansados de instabilidades. Em suas campanhas, em meio às promessas – muitas delas descabidas – o quanto serão capazes de nos dizer: “prometo tal coisa, mas isso vai sempre depender da aprovação do Congresso Nacional”.

Assim, escrevo tudo isso para dizer: será que não temos suficientes experiências nesse volume de sujeitos para recebermos deles um discurso minimamente respeitoso acerca do funcionamento político-parlamentar? Em outubro vamos escolher um par de políticos hábil o suficiente para governar com o apoio de um Congresso Nacional. Esse parlamento terá altíssimo nível a depender de nosso comportamento eleitoral, e isso infelizmente é somente um sonho. Assim, a despeito do improvável milagre de termos um Legislativo probo, razoável e decente, finalizo com duas questões: teremos candidatos ao Executivo capazes de nos mostrar efetivamente qual o papel do Poder Legislativo em suas trajetórias, ou teremos alguém a ocupar a Presidência se achando Deus, corrompendo o parlamento, justificando que o fracasso de suas promessas esbarram no “legislativo golpista” e tapeando a sociedade como se numa democracia os deputados e senadores para nada servissem? Que parlamentares são ou foram esses sujeitos e o que podemos esperar deles enquanto políticos com P maiúsculo? O debate mostra que o nível é baixo demais. E se nada disso que escrevi fizer sentido, teremos boa mostra de que essas carreiras apenas enfeitaram o parlamento, e o Legislativo definitivamente não cumpre seu papel na sociedade brasileira.