Pela família! Que família?

Pela família! Que família?

Humberto Dantas

31 de maio de 2016 | 10h35

nuvem palavras impeachment

“Por um Brasil onde meu pai e meu avô diziam que decência e honestidade não eram possibilidade. Eram obrigação. Por um Brasil onde os brasileiros tenham decência e honestidade. Por Minas, pelo Brasil, para os jovens que estão lá fora nas ruas, verás que um filho teu não foge à luta”. Foi com esse discurso que o deputado do PSDB de Minas Gerais, o jovem parlamentar Caio Narcio, 29 anos, votou favoravelmente pelo impedimento da presidente Dilma Rousseff em abril. Note o peso que sua família tem.

Em entrevista recente à agência escola de jornalismo “É Nois – inteligência jovem”, fui informado pela repórter que existem menos de 20 jovens deputados federais na Câmara – com idade inferior a 30 anos. Argumentei que não necessariamente o jovem representa o jovem, e que para chegar ao parlamento federal o caminho costuma ser longo e o tempo, um aliado. Assim, é realmente pouco provável que assistamos ao parlamento representar, tal como um espelho, a lógica etária da população em suas fileiras. Caberia, assim, a esse público uma luta associada à pressão sobre os parlamentares para que se fizessem ouvir. E isso, numa democracia, é algo absolutamente esperado e desejado. Sendo desejado também, é óbvio, que a juventude se envolva e dispute votos, mas essa tarefa é complexa – lembrando que 21 anos é a idade mínima para um cidadão ser diplomado como deputado federal.

Para completar, como hipótese, apontei à jornalista que parte expressiva desses jovens encontrados hoje na Câmara Federal deve ser composta por familiares de políticos consagrados. Isso, em linhas gerais, é esperado em nossa cultura e a grande questão seria entender se esses políticos chegariam ao parlamento com ideias novas ou apenas reproduzindo os velhos vícios de seus pais, tios, avôs, familiares etc.

Na manhã de ontem, a polícia agiu em Minas Gerais e levou preso Narcio Rodrigues. Trata-se do pai citado por Caio em seu discurso. Claro que tudo pode ser um tremendo engano, e cabe defesa, como a qualquer brasileiro nas mesmas condições. A operação tem como objetivo, de acordo com reportagem do Estadão, “investigar suposto desvio de recursos para a construção do Centro Internacional de Educação, Capacitação e Pesquisa Aplicada em Águas (Hidroex), erguido pelo governo de Minas em Frutal, no Triângulo Mineiro, cidade natal e reduto eleitoral de Narcio Rodrigues. A autorização para o início das atividades do centro foi assinada pelo então governador Aécio Neves (…) em fevereiro de 2010”.

Narcio foi deputado federal por cinco mandatos, desde quando foi eleito primeiro suplente em 1994, exercendo a atividade de parlamentar durante alguns períodos, até a eleição de 2010. Presidiu o PSDB mineiro e em vídeo de campanhas passadas foi tratado por Aécio como homem de sua grande confiança. Em 2014, licenciado do Congresso, ocupou cargo de secretário estadual do então governador Anastasia (PSDB) – com quem tem grande proximidade e de quem foi um dos coordenadores da campanha para o governo em 2010 –, apontou que elegeria seu filho como sucessor, de acordo com reportagem do jornal Estado de Minas de fevereiro de 2014.

Caio não é o primeiro deputado a ver seu discurso “frustrado” no processo de pedido de abertura de impeachment na Câmara. Sua companheira de estado, a deputada Raquel Muniz (PSD), não teve dúvidas ao proferir seu voto: “meu voto é para dizer que o Brasil tem jeito, o prefeito de Montes Claros mostra isso para todos nós com sua gestão”. E não deu outra: no dia seguinte à votação, Rui Adriano Borges Muniz (PSB) foi encarcerado na operação Máscara da Sanidade II – Sabotadores da Saúde, que investiga fraudes para favorecer hospitais ligados a sua família.

A nuvem de palavras feita a partir dos mais de 500 discursos ocorridos ao longo do procedimento deflagrado por Eduardo Cunha, e enviado ao Senado em meados de abril, carrega as palavras “esperança”, “respeito” e “responsabilidade” entre 50 e 100 vezes, aproximadamente. A principal questão é compreender, efetivamente, o quanto podemos esperar de responsabilidade e respeito de nossos parlamentares, para que possamos ter um mínimo de esperança nesse país. Este texto não trata de questionar o processo, mas de compreender o que efetivamente os 513 deputados federais carregam consigo quando apelam para valores tão caros à sociedade. E o que os 140 milhões de brasileiros levam às urnas quando contratam esses políticos. Detalhe: a palavra família apareceu 136 vezes. Do que exatamente estamos falando? Fica uma pista: a jornalista da “É Nois” confirmou minha hipótese. TODOS os 19 parlamentares com menos de 30 anos que participaram do processo de impeachment, contra ou a favor dele, têm família ligada à política.