Para que servem os legisladores

Humberto Dantas

12 de janeiro de 2016 | 11h02

Acabo de tabular quase dois mil questionários de 2015 que buscam perceber a relação de jovens com a política antes e depois da realização de um curso suprapartidário que ministro nas periferias de São Paulo desde 2008, com o apoio da Fundação Konrad Adenauer. O público alvo das ações é formado por estudantes do ensino médio, com idades entre 15 e 18 anos. Um dado chama a atenção e guarda relação direta com o Parlamento – tema central deste nosso blog. Mas alarguemos um pouco o conteúdo deste texto para além desta pergunta singular.

Impressiona satisfatoriamente, apesar de sonharmos com muito mais do que isso, os 22% de jovens que afirmam gostar de política, junto aos outros 74% indicando não gostar, mas reconhecendo precisar dela para viver em sociedade. Também soam positivas ideias como 87% de índice de concordância com o fato de que na democracia somos os responsáveis por nossa realidade e 88% de aceitação com a necessidade de se aprender política nas escolas. Neste segundo caso, o desafio de nossa realidade democrática é elevar a níveis como este o grau de aceitação com sentença associada ao “compromisso da escola pública de formar cidadãos no Brasil”, que ficou em apenas 41%. Nesse sentido, parece mesmo existir vontade política dos jovens, pois, por mais que 88% não simpatizem com qualquer partido, o indicador de concordância quando o assunto é a necessidade de nos aproximar das legendas atinge expressivos 68%. O que falta então? Simples: educação política nas escolas e participação ativa.

Em relação ao Parlamento, dois dados chamam a atenção. Existia apenas uma passagem do formulário que buscava medir o grau de concordância em relação à seguinte frase: “legisladores devem realizar favores para os seus eleitores”. O primeiro ponto preocupante: no questionário de entrada do curso muitos alunos nos perguntam o que são “legisladores”. Pois é, o universo da política por vezes parece mesmo distante do cidadão comum em coisas banais. No formulário de saída a dúvida desaparece, mas o grau de concordância com aquela sentença preocupa: 43%. E, neste caso, 18% dos respondentes concordam plenamente com a afirmação. A posição me faz lembrar a pesquisa da Associação dos Magistrados Brasileiros de 2008, em que percentual expressivo dos mais de mil e quinhentos cidadãos entrevistados afirmava que vereadores deviam pagar contas, distribuir empregos, desatar nós na burocracia, entre outras quireras que pouco combinam com a lógica democrática e muito caracterizam nossa sociedade.

Neste sentido, será que os jovens reproduziriam tais práticas? Um vereador do interior contou, numa palestra que proferi faz alguns anos no interior de São Paulo, que as comissões de formatura da escola pública de ensino médio local passavam entre os gabinetes da Câmara promovendo o “leilão do paraninfo”. Tratava-se de uma forma de vender, a quem pagasse mais em cerveja e carne, o posto de cidadão homenageado pela turma, que teria a chance de proferir discurso para mais de 500 “eleitores” no ginásio do colégio.

Legisladores, por mais que muitos pratiquem e preguem isso, não são fazedores de favores ou micro-executores de causas locais. Não são diplomatas de bairros e tampouco despachantes de mini causas singulares. Este é um dos principais desafios de um país que se surpreende quando um Parlamento se torna ativo, como o Congresso Nacional de 2015. Uma pena, neste caso, que presidido por pessoas tão imersas em suspeitas de corrupção num universo tão casuísta. Igualmente lamentável que, por mais boa vontade que tenha e reconheça a política como essencial, o jovem de ensino médio ainda esteja tão distante dos parlamentos. Estas duas realidades estão absolutamente relacionadas. Nos cabe mudar isso.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.