Os nomes de urna e a escolha eleitoral

Marcela Tanaka

27 de setembro de 2018 | 15h07

8595 Deputados Federais. 17951 Deputados Estaduais. 35 partidos. Essa é a conta atual do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do número de candidaturas do País para as eleições de 2018. Quase 30 mil nomes concorrendo a cargos eletivos nas atuais eleições, um aumento de 7% em relação às eleições de 2014. Em média, existem 17 candidatos para cada vaga em disputa para o legislativo estadual. Para a Câmara dos Deputados, cada vaga é concorrida por 16 postulantes. Assim, cada voto conta. Isso porque, além da maior concorrência no atual pleito, dentro do pacote das reformas políticas de Eduardo Cunha (MDB) há uma nova regra em que a(o) deputada(o) precisa conseguir o equivalente a 10% do quociente eleitoral[1] em votos para ser eleita(o). Isso significa que, em tese, os partidos perderam sua capacidade de conseguir mais cadeiras com os famosos “puxadores de voto”. Do outro lado, estimula a competição entre os candidatos de uma mesma legenda pelos votos, se antes era possível ser eleito pelo partido por meio do cálculo do quociente eleitoral, atualmente é necessário obter uma votação mínima.

Isso leva a um dilema por parte dos candidatos e dos eleitores: como obter tantos votos e como escolher um representante no meio de tantas opções, respectivamente. As eleições brasileiras têm um custo elevado para o sucesso das candidaturas, com o fim do financiamento empresarial, os candidatos com menos capital (financeiro e político) passam a necessitar de outros meios para a sua campanha. Do lado do eleitor, há também um alto custo para a escolha eleitoral, afinal, como selecionar apenas um nome no meio de tantas possibilidades?

O acesso à informação política de qualidade é custoso ao eleitor. Inserções na televisão e rádio de apenas alguns segundos raramente refletem propostas concretas dos candidatos. No meio desses milhares de pessoas, o eleitor se vê na necessidade de escolher aquele nome que o agrade, ao mesmo tempo em que o eleitor médio não busca gastar mais tempo procurando informações, utiliza-se então de atalhos.

Os atalhos cognitivos, são utilizados tanto pelos candidatos quanto pelos eleitores. Esse atalho de informação é mobilizado por várias formas, dentre elas está o nome de urna. Não é novidade concorrer com um nome que seja diferente do nome civil, assim, vemos na disputa vários Pastores, Coronéis, Tenentes, Bispos, Missionários e Doutores como forma de ativar essa mobilização no eleitor. A literatura recente[2] aponta que em eleições com baixa informação, alto número de candidatos e baixa identificação partidária, como no Brasil, esses atalhos cognitivos têm um papel importante no processo de tomada de decisão dos eleitores. Ou seja, de um lado, candidatos utilizam esses atalhos informacionais para se distinguir dos demais e, por outro, eleitores usam essas “pistas” para tomar uma decisão com menor custo.

O que isso tudo significa para as eleições de 2018? Segundo o TSE, mais de 500 candidatos utilizam em seu nome de urna títulos confessionais, tais como Pastor(a), Bispo(a), Padre, entre outros, mobilizando atalhos religiosos,. A vantagem dessa utilização, é que se cria uma identidade de grupo, sobretudo no caso dos candidatos religiosos. Mas o nome de urna também é uma faca de dois gumes, pois pode causar rejeição por parte dos grupos contrários. Então, usar ou não um nome de urna com “pistas eleitorais”?

No caso dos candidatos religiosos, sobretudo pentecostais, existe uma infraestrutura institucional de apoio às candidaturas oficiais. Assim, aqueles candidatos que concorrem oficialmente por suas igrejas não precisam fazer uso dos atalhos cognitivos em seus nomes de urna porque contam com o apoio institucional da denominação, o que acaba rendendo votos de forma sistemática. Procuramos os candidatos oficiais a deputado estadual das Assembleias de Deus e Igreja Universal por São Paulo e verificamos que não usam nome de urna com atalho[3], parte deles está buscando, inclusive, a reeleição. Por outro lado, candidatos que não possuem essa rede de apoio institucional, e que precisam conquistar votos para atingir sua cota mínima, podem se valer dessa estratégia, ainda que sob o ônus de sofrer rejeição por parte dos demais grupos. A aposta na estratégia da coesão de identidade de grupo parece funcionar melhor do que a de rejeição.

Assim, em um contexto de eleições caras, competitivas, com novas regras institucionais e baixa identificação partidária, apelar para outros meios de comunicação com o eleitor parece surgir como uma opção às candidaturas menos viáveis. Esperemos os resultados das urnas para checar a veracidade dessas hipóteses, por hora, fica a reflexão sobre até que ponto estamos sacrificando qualidade da representação democrática em prol de votos conquistados com poucas informações e muita propaganda política.

[1] O quociente eleitoral é calculado dividindo-se o número de votos válidos obtidos (sem brancos e nulos) pelo número de cadeiras em disputa.

[2] Boas,T. (2014). Pastor Paulo vs. Doctor Carlos: professional titles as voting heuristics in Brazil. Journal of Politics in Latin America, 2, pp. 39-72.

[3] Exceção feita ao candidato Alex de Madureira (PSD) que concorre pela Assembleia de Deus – Ministério de Madureira.