Os limites do governismo

Vítor Sandes

14 de julho de 2015 | 12h43

PT e PSDB têm se colocado como as principais alternativas nas eleições presidenciais no Brasil, polarizando pleitos eleitorais desde 1994. Esse arranjo, no entanto, tem sofrido ameaças com o avanço de outras frentes, principalmente com a perda de força política do PT, o que tem provocado alterações no campo governista, com a saída de aliados, e, consequentemente, o fortalecimento da oposição. Essas mudanças são percebidas na forma como os partidos têm se posicionado nas votações na Câmara dos Deputados, particularmente do PMDB e do PSB, que, em diferentes níveis, aproximaram-se fortemente das forças opositoras, colocando em cheque a capacidade do Executivo de obter o apoio legislativo necessário.

A queda das bases governistas do Executivo federal, no entanto, começou antes de 2015. Nas últimas duas eleições, em 2010 e 2014, surgiu uma terceira via liderada pela candidata Marina Silva que conseguiu conquistar, no primeiro turno, parcela significativa do eleitorado, não suficiente para romper com as disputas polarizadas entre PT e PSDB. Em 2010, Marina estava vinculada ao PV e, no ano passado, ao PSB. Em 2014, a conjuntura, no entanto, diferia bastante daquela de 2010. Há cinco anos, o governo petista possuía altos índices de aprovação (muito acima dos 50%) e, no ano passado, chegou à faixa dos 40-42% no período das eleições. O início da trajetória de desaprovação do governo e movimento centrífugo dos aliados começou em junho de 2013, quando a aprovação do governo caiu para 30%. No segundo semestre, houve a saída do PSB da coalizão, devido ao lançamento da pré-candidatura de Eduardo Campos.

Em 2014, as eleições apresentaram uma nova mudança: o falecimento do candidato Eduardo Campos, com raízes dentro do governismo, e o lançamento da candidatura de Marina Silva em seu lugar. Com isso, a candidata, amparada por um partido com muito mais capital político do que o PV, marcou um discurso de oposição mais enfático do que o PSB se propunha anteriormente. No segundo turno, o PSB declarou apoio à candidatura de Aécio Neves, do PSDB. Estava demarcado o fim da aliança histórica entre PT e PSB.

Após uma eleição extremamente disputada, em 2014, e mesmo com a vitória, a presidente Dilma Rousseff enfrentaria outro problema: reconstruir as bases governistas que garantissem a aprovação da sua agenda de governo. A situação naquele momento era diferente: perda de aliados e, um agravante, condições econômicas adversas, que imporiam, ao governo, políticas que colocariam em cheque, definitivamente, sua popularidade. Estava selado o último passo do difícil ano de 2015 para o governismo.

A mudança de trajetória do PSB, a centralidade do PMDB na condução política do Congresso e a dificuldade de coordenação do governo junto ao Legislativo, somado aos baixos níveis de popularidade do Executivo, evidenciam os limites do governismo, considerado, até pouco tempo atrás, uma força irresistível do sistema político brasileiro. Desse cenário, surgiu um momento novo para a política nacional: a reinvenção da oposição. Até o início dos anos 2000, a única forma de se fazer oposição no país era pela via da esquerda. O ano de 2015 tem mostrado que uma oposição pela via da centro-direita também é possível.

Dois mil e quinze, no entanto, marca o primeiro ano de uma difícil conjuntura política que está prevista para o governismo. Serão três anos e meio de legislatura e ocorrerão eleições municipais em 2016, que poderão marcar uma diminuição do tamanho do PT nas prefeituras. Com isso, novas rodadas de acordos ocorrerão. O custo político de se vincular ao governo poderá continuar alto para os partidos e lideranças. Os acordos poderão continuar a ser pontuais, impedindo a construção de apoio legislativo estável.

Um desafio se impõe ao governismo: o da reinvenção, tendo em vista a reconstrução de suas bases políticas. Uma conclusão é certa: o jogo democrático no Brasil é muito menos previsível do que se poderia imaginar.

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