Os donos da razão

Eduardo Seino

01 Maio 2018 | 09h02

Quero tratar hoje de tema menos denso, mas de importância nada desprezível. Diz respeito à democracia do dia a dia, construída no interior das relações entre as pessoas, e a como lidamos com preferências divergentes das nossas.

Há alguns dias, em uma confraternização de amigos, estávamos conversando sobre as candidaturas dessa próxima eleição, os pontos positivos e as desvantagens de alguns candidatos. Entre nossas diferenças de pensamento, fazíamos críticas e elogios a esta ou aquela figura pública, expondo os nossos argumentos e preferências ideológicas. Nesse tipo de conversa é raro quando não existem visões conflituosas acerca de um assunto específico e, nesse momento, chegamos à questão delicada.

Você já se deparou com alguma situação em que fulano vira para beltrano e se diz inconformado por beltrano ter um posicionamento ou um candidato preferido diferente do dele? Pior: quando esse desconforto se transforma em ódio desmedido difícil de explicar? Ou ainda uma situação em que a fala é direcionada à pessoa de opinião oposta no sentido de desmerecê-la, não encarando argumentos, mas pressupondo que existe lapso cognitivo naquele que não pensa da mesma forma?

Se você esteve em circunstâncias parecidas, vamos um passo adiante. Já parou para pensar o quanto desmerecer um posicionamento incomoda àquele que foi desmerecido e, além disso, cria desavenças ao invés de mediações?

Foram essas perguntas que me fiz quando presenciei um tipo de postura semelhante em uma discussão política entre amigos. Repito: entre amigos. Assim, o que não se esperar quando a discussão passa a ser com pessoas que nem se conhecem?

O debate democrático é um exercício custoso, porque exige uma dose extra de vigilância, para não ferirmos um dos valores fundamentais da democracia: a tolerância com as mais diversas formas de pensamento. Nesse sentido, quem diz qual será a substância que preenche o regime democrático são os cidadãos e isso se materializa todos os dias por meio de falas, gestos e ações.

Os períodos eleitorais são tempos especialmente difíceis para o diálogo. São momentos de teste, ainda mais para os defensores da democracia, em que tudo o que foi sugerido acima se coloca à prova.

E o que isso tem a ver com o Poder Legislativo? Além do debate em torno das próprias candidaturas, o Legislativo é exatamente a expressão máxima da pluralidade social e, por isso mesmo, estão representadas ali preferências diferentes das nossas. A pluralidade é o pressuposto, na sociedade e, por conseguinte, nos parlamentos. Sendo assim, esse espaço também não aceita somente um dono da razão.

Para finalizar, se na fala jocosa popularizada a sexta-feira tem muitas características para ser o “dia da maldade”, que os dias vindouros do período eleitoral sejam dias de olhar no olho e dizer que você respeita a opinião frontalmente diferente da sua e nem por isso acredita que a pessoa é idiota ou menos “iluminada” do que você. Sejam dias de acreditar que as eleições são uma saída. Sejam dias de ter paciência com os donos da razão e expor seu ponto de vista gentilmente. Sejam dias melhores.

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