Olhando pro PMDB

Humberto Dantas

08 de dezembro de 2015 | 08h56

Dados podem contribuir para a compreensão de alguns lances associados ao pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Muito se tem falado sobre o protagonismo do PMDB neste processo. Vamos nos ater a informações deste partido. A primeira questão é velha conhecida de todos que reservam atenção à política: existe apenas um PMDB? Não. E, para dizer a verdade, de forma mais clara: é raro encontrar comportamento uniforme nesta legenda. Ainda assim, é possível dizer que o PMDB demonstrou unidade em instantes recentes e simbólicos para o atual governo. No começo de 2011, por exemplo, votou integralmente unido no primeiro grande teste da recém-eleita Dilma. A reunião se deu em torno das regras do salário mínimo. O resultado foi comemorado pelo governo, reforçando a lealdade ofertada na eleição de Marco Maia (PT-RS) para a presidência da Câmara dos Deputados, num acordo que em 2013 levaria Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) ao cargo. Política se faz por sinais de ambas as partes. A carta de Michel Temer cobra, justamente, uma possível (e pseudo, em alguns casos) lealdade que não seria reconhecida. Fatos, gestos e afagos, é o modo de a política funcionar.

Este histórico é importante porque foi em fevereiro de 2015, na eleição para a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, que PT e PMDB deixaram de trocar, entre si e de maneira mais clara, afagos políticos. O afastamento foi nítido e se anunciara ao longo de 2014. A aprovação da chapa Dilma-Temer, que o vice atribui a si, atingiu entre os peemedebistas, em junho do ano passado, adesão bem inferior àquela de 2010. O número de eleitores estaduais que viu os dois partidos se enfrentarem em disputas locais atingiu três quartos do eleitorado e o total de candidatos a governador lançado pelos dois partidos em 2014 foi bem diferente do mínimo histórico atingido por ambos em 2010.

Hoje, não é incomum assistirmos deputados federais do PMDB e do PT se acusando em discursos agudos, sobretudo onde os partidos são adversários estaduais históricos, como no Rio Grande do Sul. Para completar, a dupla Temer e Cunha, e com ela parte de seus respectivos grupos, nitidamente se tornou inimiga do governo – ou, ao menos, bastante distante, magoada e ressentida pela falta de “reconhecimento”. A composição dos nomes do partido na comissão especial do impeachment, por exemplo, rachou a legenda na Câmara, apontando dificuldades de se pensar um PMDB singular. A carta de Temer completa o cenário, por mais que ela diga meias verdades e possa ser rebatida em diversos pontos. A missiva é, nitidamente, um único lado da história. É o desabafo a que se pretende ser, pautada em sentimentos.

A despeito deste afastamento, que contamina com maior assiduidade determinadas alas do partido a ponto de um ministro ligado ao vice-presidente da República entregar o cargo, existem ambientes onde PT e PMDB voltam a se aproximar. Tal postura poderia representar uma capacidade maior de o governo se livrar do processo de impeachment? O fim de uma cumplicidade relacionada à chantagem entre PT e PMDB, em torno da salvação de Dilma e Cunha, poderia até restabelecer a lógica de coalizão se o governo for hábil e rápido. Mas e a carta? Duas zonas claras de conflito escancaradas?

Apesar das respostas negativas a tais questões, na Câmara dos Deputados a taxa de governismo de deputados federais do PMDB subiu de cerca de 70% em agosto para quase 80% entre novembro e o início de dezembro. Isso não representa que todos agirão desta forma em momentos cruciais ligados ao impedimento, mas pode revelar uma capacidade maior de articulação depois da chamada reforma ministerial – feita em outubro, mês em que a curva de aproximação do PMDB com o Planalto se consolidou rumo a uma melhora. A vaga do demissionário Eliseu Padilha, inclusive, seria ofertada a um parlamentar do PMDB de Minas Gerais. Ademais, merece destaque o fato de que este movimento de aproximação se repetiu no Senado, reforçando a tese de que aceitar o pedido de impeachment foi um “gesto terrorista” de Eduardo Cunha. O problema é que o vice deu dois passos para longe.

Conclusão: é possível verificar que, apesar de o presidente da Câmara ter sido o detonador de uma bomba e de Temer tramar fortemente contra o Planalto do qual faz parte, o governo Dilma parecia estar dando sinais claros de uma mínima recomposição. O PMDB, neste caso, continua sendo o pivô central da compreensão de tal universo. Sua saída do governo não está descartada e o sentimento de Temer em relação a ele é bem negativo, constituindo o maior de todos os problemas para a presidente. É importante, no entanto, lembrar que uma das maiores críticas de partidos aliados ao governo é a desproporcional distribuição de ministérios entre os aliados. Neste caso, sete pastas ainda poderiam ser entregues a legendas que se mostrassem minimamente solidárias – ou mesmo a setores escantilhados do PMDB. É um cenário improvável, mas não faltam candidatos para a ocupação de tais espaços, flertando, discursando em prol do governo.

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