Ocaso e descaso com a democracia

Vítor Oliveira

21 de outubro de 2021 | 18h38

É uma triste constatação, mas há algo fundamentalmente errado conosco – com nossas escolhas e instituições. A culpa não é dos outros, apenas. Há uma parcela significativa de omissão e equívocos que os democratas cometemos nos últimos anos.

Sem entrar na onda do “instituições estão funcionando” ou de sua negação, esse aforismo torto que vez por outra nos suga em um pântano de anomia e postagens click bait em redes sociais, é necessário entender o porquê do desprezo pela democracia.

De outro modo, por qual razão deixamos de enxergar legitimidade no outro e entramos nessa espiral destrutiva?

É impossível dissociarmos o que ocorre em nossos tempos das mudanças profundas na maneira como nos comunicamos, cada vez mais de forma dinâmica e virulenta, sem mediações de terceiros, mas, ao mesmo tempo, armados pelo anteparo selvagem das redes sociais, plataformas e mensagerias.

Outros analistas oferecem explicações voltadas para o desprezo das elites pela ascensão de classes anteriormente eliminadas das relações de consumo de bens e, principalmente, serviços. Poucas coisas ilustram isso como o incômodo do (ainda) ministro Paulo Guedes com as empregadas domésticas viajando para os parques temáticos da Disney.

Crime e Castigo

Fernando Limongi, uma de nossas referências na ciência política, tem insistido que o impeachment de Dilma Rousseff representou a quebra do pacto que nossas elites políticas tinham, cujo amálgama era a inclusão social projetada desde a redemocratização.

E isto se dava por caminhos diferentes; seja por políticas públicas mais liberais, como o controle fiscal (e da inflação) e a transferência direta de renda (Bolsa Família), ou pelo fortalecimento do Estado em políticas como educação e saúde. Um caminho lento e confuso, mas coerente em seu núcleo.

Bolsonaro seria o que sobrou após a demolição da casinha democrática. O último rato a se manter em pé, cujos esquemas corruptos eram tão mesquinhos e provincianos que passavam ao largo do olho do furacão explorado ad nauseam pela Lava Jato.

Faz sentido, mas a questão parece se arrastar há mais tempo. O papel do Poder Legislativo foi, majoritariamente, o de criar pontes e possibilidades de vínculos entre elites políticas que divergiam. Ao mesmo tempo, o bombardeio.

Em algum momento, as instituições políticas – em especial, o Legislativo – perderam muito em sua capacidade de processar os conflitos políticos de modo pacífico. A facada em Bolsonaro, os linchamentos virtuais e incapacidade crônica de responder ao racismo são apenas alguns exemplos disso.

Seria importante separar (a) os incentivos gerados pela estrutura do sistema político das (b) escolhas efetivas que os atores fizeram e fazem. E aqui entra uma discussão nada trivial sobre a racionalidade.

Até que ponto dizer que Bolsonaro é irracional faz sentido? Acho que ele, assim como sua família e o núcleo mais tosco de seu governo, tem objetivos bastante racionais de maximização dos ganhos particulares ou mitigação dos riscos de serem presos.

Mas decisões racionais no âmbito individual podem levar a consequências estapafúrdias e contrárias aos próprios interesses desses indivíduos, quando olhamos se resultado no coletivo. Acho que é essa a chave.

Perdemos a capacidade, pela fragmentação dos partidos ou das próprias instituições, de gerar respostas coletivas aos problemas. Atomizados pela comunicação digital, isolados politicamente uns dos outros, o fascismo floresceu entre nós a passos largos.

Tentando trazer Hannah Arendt para nossa crise, acredito que as liberdades democráticas ganham sentido exatamente quando postas diante das diferenças, mas em um ambiente de pertencimento coletivo. É na dissolução da política e de seus mecanismos coletivos, portanto, que se encontra a chave para entender a crise.

Nada mais simbólico desse processo que os nossos partidos, cuja grande inovação nos últimos anos foram estratégias de “rebranding”, nada relativo à sua conexão com a sociedade. Se os partidos estão distantes da política fora do Parlamento, a consequência é o enfraquecimento do próprio Legislativo no longo prazo. E com ele, o edifício da democracia.

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