O tempo político

Humberto Dantas

16 de dezembro de 2020 | 08h30

*Texto escrito por Marina Cano, sócia da Legisla Brasil, uma sociedade sem fins lucrativos que acredita no poder das equipes em transformar a política.

Como a própria definição diz, o tempo é uma declaração relativa das coisas. E na política não poderia ser diferente: o tempo político parece ser ainda mais relativo, porque envolve interesses difusos e uma agenda pública dinâmica. Além disso tudo, pelo fato da política ser o local da tomada de decisão em escala, o tempo de percepção do impacto vindo de mudanças de diretrizes é ainda maior.

Foi uma assessora da Rede Legisla quem me contou pela primeira vez sobre a percepção do tempo político. Estar dentro de um gabinete ampliou seus horizontes para entender que praticar a democracia leva tempo. Como ela mesmo aponta, a despeito de algumas ausências que são evidentes por parte de alguns representantes, conseguir articular interesses da sociedade e levá-los adiante dentro da casa, exige muita articulação e debate. Não é coincidência que uma das competências mais relevantes a serem avaliadas na ora de contratar um assessor é a resiliência.

Nas últimas eleições, pude notar outra faceta do tempo político na Câmara Municipal de São Paulo. Acompanhei grande parte dos gabinetes parceiros da Legisla Brasil, de diferentes campos políticos não serem reeleitos. Gabinetes que, independentemente da visão política que levavam adiante, construíram equipes parlamentares fortes, por estarem comprometidos em entregar valor para sociedade. A expectativa da sociedade, por alguma razão, não estava alinhada com o tempo político para suas entregas.

Alinhar a percepção sobre o tempo político e o impacto parece crucial para que mandatos consigam seguir trabalhando para os cidadãos. A forma clássica de equilibrar o contraste entre esses tempos, era a figura da liderança; que conseguia concentrar em si a esperança e “acalmar os ânimos”. Arrisco dizer que os tempos são outros e que os(as) parlamentares vão ter que repensar as formas de manter o equilíbrio.

Para mim, novas formas de contornar os desafios do tempo político são: ter equipes qualificadas que conseguem a todo momento traduzir para a sociedade seus feitos; praticar a democracia ágil dentro de seus mandatos; trazer a sociedade para participar ativamente deles e, finalmente, trazer o cidadão para entender esta temporalidade política e fazer escolhas mais conscientes e assertivas. Afinal, se queremos soluções robustas, vamos precisar construir processos democráticos também mais robustos, fazendo um acompanhamento político mais intenso e elegendo representantes que tem mais as caras de nossos Brasis. E para você, quais novas apostas deveriam ser feitas para contornar os desafios do tempo político?

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