O sucesso de Bolsonaro e do PSL

Eduardo Seino

16 de outubro de 2018 | 18h50

*Em parceria com o advogado Lucas Altimari

Passada a primeira rodada das eleições de 2018, uma das principais questões que se coloca é: por que Bolsonaro e o Partido Social Liberal obtiveram resultados tão expressivos?

Na Câmara dos Deputados, o PSL fez a segunda maior bancada, atrás apenas do PT. Em relação às Assembleias Legislativas, o PSL fez a terceira maior bancada de deputados estaduais, atrás somente do MDB e PT. Ressalte-se que o PSL era praticamente inexistente e ganhou força ao mesmo tempo em que muitos partidos grandes perderam representantes: PSDB e MDB tiveram, em 2014, respectivamente, 54 e 65 deputados federais eleitos, mas, em 2018, ambos sequer chegaram a casa dos 35 deputados, número consideravelmente menor do que os 52 deputados federais alcançados pelo PSL. O candidato Jair Bolsonaro, por sua vez, foi o candidato mais votado em 17 estados, incluindo o estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil, onde obteve 53% dos votos válidos.

O PSL conseguiu materializar-se na mente das pessoas como o contraponto aos “antigos partidos”, sendo a resposta à crise de corrupção dessas instituições e vestindo-se de uma roupagem da ética e da defesa dos bons costumes. Assim, mobilizou o imaginário político idealizado por grande parte da população e, com recrudescimento, elegeu um inimigo a combater: o PT, que, na seara deste imaginário, reunia todas as práticas nefastas e espúrias que deveriam ser alijadas e extirpadas da pátria. Ao fim e ao cabo, no afã de fincar pilastras no sólido alicerce do eleitorado conservador, trabalhou em favor da polarização esquerda-direita e colheu seus frutos, estabelecendo-se como a melhor opção antiPT, sobretudo, pela influência da eleição presidencial.

Nesse contexto, o antipetismo não surge abruptamente. Em que pese a contribuição do próprio Bolsonaro, em verdade, ele apenas se valeu de um cenário propício criado por meio de um longo processo construído e encorpado com a ajuda de diferentes atores.

Em primeiro lugar, houve contribuição decisiva do próprio PT. Não se sabe se por receio de perder o apoio de seus eleitores ou, posteriormente, por medo de quebrar a narrativa do golpe, não buscou fazer um mea culpa no que tange à corrupção desvelada. Ao não fazer, permitiu que o rótulo da corrupção colasse no partido como um todo e não em determinados grupos ou indivíduos.

Além disso, a despeito das possíveis arbitrariedades ocorridas no bojo do processo penal, a espetacularização da operação Lava-Jato foi fator que contribuiu significativamente para a emersão de candidatos alinhados ao conservadorismo, mormente Bolsonaro e o seu partido que, cientes da conjuntura política, venderam-se como a antítese de tudo aquilo mostrado na TV: conduções coercitivas, tornozeleiras eletrônicas e malas de dinheiro. Tendo isso em vista, a imprensa também é protagonista.

A deterioração e a desmoralização política se tornou praticamente pauta única de muitos veículos de comunicação; produções dignas de Hollywood narravam o esmorecer da classe política, com aparente predileção partidária.

Outro meio de comunicação marcou presença de forma inédita: o WhatsApp. O aplicativo foi veículo de transmissão marcante das chamadas fake news e das montagens mais baratas. Infelizmente, a efetividade de informações rápidas, curtas e causadoras de indignação foi determinante para boa parte do eleitorado, em especial, aquele que não procura checar as informações que recebe. Um aparte: será necessário pensar formas de responsabilizar criadores e reprodutores de informações falsas e caluniosas por esses meios de comunicação.

Por fim, mas não menos importante, temos o PSDB. No pleito de 2014, o partido optou por concentrar sua estratégia, precipitadamente, no combate à corrupção recém desnudada (Lava-Jato). Com o desenrolar do processo, muitos fatos criminosos foram imputados ao PSDB e, inclusive, ao presidenciável de 2014, à época presidente do partido, Aécio Neves, porta voz de severas críticas a corrupção Petista. O PSDB jogou o PT na vala comum e se viu também lá jogado por seu próprio discurso. A carapuça serviu para si mesmo. Assim, ao ser tragado também aos escândalos de corrupção se auto implodiu e viu seu frágil vínculo com a narrativa da anticorrupção se romper. A sociedade, esgotada e extenuada, clamava por um candidato com discurso da antipolítica: pano de fundo ideal para o crescimento da popularidade de políticos como Jair Bolsonaro.

Além de todo esse contexto, surfando na onda do popular presidenciável, o partido articulou candidaturas estratégicas com os chamados “bons de voto”. Vamos aos exemplos: em São Paulo, para deputado estadual, o PSL lançou a famosa protagonista no episódio do impeachment, Janaína Paschoal, que obteve 2.060.786 votos, quantidade suficiente para eleger a si e mais oito correligionários. Ainda em São Paulo, mas alternando para a vaga de deputado federal, o PSL lançou a dupla Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann, que juntos obtiveram 2.922.401 votos, quantidade suficiente para se elegerem e “puxarem” mais sete correligionários.

O movimento faz todo sentido para a construção pragmática de força política. O que significa ganhar força nos Legislativos? Em regra, significa maior poder de barganha para adentrar na estrutura da administração pública, compor governos, interferir nas decisões e no direcionamento de recursos públicos para determinadas políticas. Estes fatores facilitam o acesso e a reivindicação do voto para estes representantes no futuro momento eleitoral.

O PSL soube aproveitar o momento, mas todos os citados são corresponsáveis pela ascensão de Bolsonaro e de seu partido. Se o final dessa história toda for triste, lembrem-se que a conta ainda estará em vossas mesas. Talvez valha começar a pensar em como acertá-la.

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