O Renova Brasil por dentro

Humberto Dantas

14 Dezembro 2017 | 12h30

“Fundo com apoio de Huck e Abilio dará R$ 5.000 para novos candidatos”

“Com bolsa de até R$ 12 mil, fundo para formar políticos tem poucos candidatos fora do Sul e Sudeste”

“Empresário lança movimento a bolsistas políticos para eleição de 2018”

As manchetes acima tratam de dimensionar, na visão da imprensa, o que significa o Renova Brasil. Quem chama a iniciativa de “movimento” é rapidamente corrigido. Trata-se de um projeto. Perfeitamente. Ademais, passa a impressão que distribuirá dinheiro e aprisionará candidatos novos a empresários e artistas. Não é exatamente isso que percebi desde que me aproximei da iniciativa. E serei muito sincero no que vi.

O projeto tem algo que atrai muito quem faz parte de um blog chamado Legis-Ativo e acredita na força do parlamento: o objetivo é tratar especificamente de fomentar com incentivo humano, recursos e formação brasileiros que desejam se eleger pela primeira vez. Podem ter participado de outras eleições? SIM, mas não podem ter sido eleitos. Podem ter filiação partidária? SIM, e não importa se à esquerda ou à direita. E nessa toada cerca de quatro mil interessados se inscreveram e foram testados por um sistema trabalhoso. Quase duzentos estão sendo entrevistados. Ou seja: “a nota de corte” foi alta, a diversidade foi garantida e a disputa foi intensa.

Participei de uma reunião inicial no CLP, onde coordeno curso de pós-graduação, e logo chamei a atenção para aspectos associados ao universo do direito eleitoral. Segundo um amigo que atua nessa área: aos olhos do TSE 2 + 2 nem sempre é igual a quatro. Assim, a despeito da subjetividade, cuidados foram tomados. E sempre merecerão atenção e respeito.

Participei de uma segunda reunião com os membros do Renova e logo notei rigidez em regras que me agradaram muito. “Pela lógica do projeto, se eu quiser me candidatar para uma vaga eu estaria vetado?”. A pergunta veio de um professor eleito vereador numa grande capital que auxilia na idealização das ações. SIM! Por dois motivos: “já foi eleito, e não cumpriria seu mandato de vereador até o final”. Essas regras são muito claras. Regras! Ahhh regras que tanto nos fazem falta no cumprimento e aqui parecem levadas a sério.

Começaram assim as entrevistas. E estou participando de algumas como avaliador. Banca forte: acadêmicos da USP, gente de movimento social, profissionais conhecedores de campanha, diferentes ideologias juntas olhando para quem deseja representar. Timaço! Mesas de candidatos selecionados com mulheres, negros, gente da periferia, pessoas de esquerda, galera à direita, ricos, jovens, um pessoal extremamente bem formado, gente que viveu sem possibilidade de ir à escola, ou seja, literalmente de “tudo um pouco” dentro de limites bem razoáveis. Pessoas que teríamos como “comuns”, isto é: exatamente a forma que devemos ver quem deseja nos representar, apesar de um certo senso comum sobre a política aparecer fortemente em alguns discursos. Ainda assim: gente que numa democracia está disposta a se colocar na política. Gente como eu, como você que está lendo esse texto. A diferença, ao menos em relação a mim, é que não sou candidato a nada, mas torço a cada dia para que mais e mais pessoas se interessem pela política, a tornando comum, entrem nos partidos e  busquem sanear seus males, reconstruindo pontes com a sociedade e nos representando.

Pelos valores presentes em algumas entrevistas duras demais, votaria em ao menos três ou quatro pessoas – a despender de seus partidos, é claro. E acredite: isso para mim conta muito. As cobraria e as acompanharia ao longo dos mandatos, se eleitas. Pressionaria suas legendas caso tivessem sido apenas capazes de ceder votos para outros candidatos mais votados – essa é a regra, e a regra me agrada.

O Renova Brasil visto por dentro atua no limite entre a utopia e a realidade – o que é ótimo quando apenas a realidade, isoladamente, é dolorida demais. Utópico pode ser pensar que por meio de pessoas novas as máquinas públicas parlamentares e os partidos serão reconstituídos e alcançarão níveis de excelência. Não acredita? No médio prazo eu creio, mas lembro sempre que a Câmara dos Deputados, por exemplo, renova cerca de 40% de seus membros em relação aos pleitos anteriores e não tem dado mostras de excelência faz anos. Assim: renovar é mais do que trocar ou substituir.

Real porque acontece, está acontecendo e acontecerá. Daqui pra frente quero ver essas pessoas escolhidas em formação intensa. Não vejo a hora de ver os rostos selecionados em sala de aula, pensando, atuando, planejando e construindo. Alguns têm potenciais imensos e amadurecerão ao longo dos primeiros meses do ano. Teremos opções em 2018 para renovar, de fato, o parlamento nacional? Não acredito que em larga escala de forma imediata, mas creio que de forma a incomodar com novas ideias.

Por fim: torço para que o Renova Brasil não caia em duas armadilhas: no radicalismo para o qual alguns movimentos que pareciam interessantes descambaram para esquerda ou direita, o que acredito que não ocorrerá; e no desejo de se expandir de tal forma que perca seu foco essencial no legislativo – o poder mais carcomido aos olhos da sociedade e aquele que melhor representa a lógica representativa democrática. Vamos aguardar. Torcer, ter esperança e se ancorar em algo que nos dê vontade de estar por perto são sentimentos fundamentais. Que se fortaleça aqui uma rede que pregue algo essencial: a tolerância entre pessoas diferentes que têm em comum o discurso do aprimoramento, a ser convertido na construção de uma política mais decente à esquerda, ao centro e à direita.