O que vai orientar o partido do presidente na Câmara?

Humberto Dantas

31 de janeiro de 2019 | 16h51

Não foram poucas as notícias que deram conta de que o PSL alimentava entre seus eleitos para a Câmara dos Deputados alguns conflitos pouco razoáveis para um partido que precisa mostrar coesão para ofertar apoio ao presidente eleito no Parlamento. Pudera: o partido cresceu mais de seis vezes no tamanho de sua bancada, pode avançar ainda mais, e nada disso parece que foi conquistado às custas de estratégia orgânica, ideológica e partidária. O PSL foi agraciado pela imensa onda bolsonarista que varreu o país. Parte expressiva dos votos de seus candidatos foi conquistada na esteira da popularidade do presidente eleito, em boa parte por candidatos que guardam características conservadoras semelhantes às suas e exploraram isso ao máximo. A estratégia eleitoral foi muito bem-sucedida e aproveitou-se de um instante histórico, tornar esse momento duradouro vai depender de fatores adicionais dos mais expressivos.

O recado das urnas veio, mas o partido consegue traduzir isso em grandeza organizacional ou se mostrará um “Incrível Exército de Brancaleone”? – filme de 1966 que conta a história de um grupo de maltrapilhos que vaga atabalhoadamente pela Itália do século XI. O conflito entre seus membros nos grupos de aplicativos deixou claras as dificuldades. Muitos dos eleitos sequer sabem o que significa ser um parlamentar, tampouco como a Câmara funciona. Isso não se restringe ao PSL, é algo infinitamente mais comum. Mas uma coisa é fato: o PSL é o partido que ocupa o Poder Executivo e precisa agir de forma articulada e exemplar para respaldar o que seu líder maior deseja. Existe clima para isso?

O que se convencionou chamar de “presidencialismo de coalizão” nos últimos anos mostra que os partidos são coesos dentro da Câmara dos Deputados. Durante o governo FHC, o PSDB e o PFL, que governavam o país, mostraram essa força. Assim como o PT a demonstrou quando desembarcou no Planalto. Os escândalos de corrupção e o que se convencionou chamar de “toma-lá-dá-cá” mostraram, ao longo dos últimos anos, que essa coesão traduzida em fidelidade ao que solicita o líder do governo nas votações – e aqui Bolsonaro indicou um marinheiro de primeira viagem que pode pagar caro pela inexperiência – tem um preço. Cargos, liberação de recursos, ministérios, impacto sobre projetos do Executivo, mesadas ilícitas etc. Tudo isso mostrou o peso de uma articulação complexa e possível. O que vai orientar o PSL?

A resposta a essa pergunta é a chave desse texto. Não a tenho com a mais absoluta clareza, mas gostaria de arriscar uma hipótese. O PSL não existe como partido político. Até a decisão de Bolsonaro se filiar à legenda no começo de 2018 e levar consigo um capital político gigantesco, o grupo se preparava pra ser transformado numa legenda de cunho liberal que brigava com o Novo pelo posicionamento à direita em termos econômicos – principalmente – junto a parcela relativamente pequena do eleitorado. Bolsonaro mudou o ambiente na legenda. Gerou insatisfação de quem há meses articulava a nova narrativa e conquistou o país por meio de eleições atípicas aos padrões até então observados. A partir daí o que os deputados federais eleitos nesse aglomerado de gente nova que em muitos casos sequer se conhecia vai pedir pra governar? A primeira resposta seria ideológica: NADA, afinal de contas o projeto de poder que tinham foi glorificado e deve prosperar. Se o governo der certo, todos sairão ganhando e estarão reeleitos em 2022. A resposta é romântica demais. E alguns começaram cedo a mendigar cargos, espaços, poder e influência. Isso é política e partido, está descrito por Max Weber no final do século XIX e se refere às mais diferentes realidades.

Mas precisam existir limites claros de articulação partidária. Algo que o senso comum não acredita que exista, mas que é fundamental. Gestão política é essencial. O PSL a tem? Difícil dizer, mas algo que pode contribuir muito para arrefecer a sede desses parlamentares – sobretudo aqueles debutantes que deslumbrados com o poder lembram a atitude de um frágil deputado federal pernambucano, ex-presidente da Câmara, que quando viu o poder que tinha na mão achacou o dono do restaurante do parlamento e pediu para si a diretoria “que furava poços” na Petrobrás.

Assim, essa sede pode ser contida pelo que seria uma atividade de ganha-ganha imensa para o PSL. Os deputados poderiam se responsabilizar pela montagem do partido nos estados e nos municípios. Em 2016, o PSL saiu das urnas com apenas 31 prefeitos eleitos, teve apenas 150 candidatos nas mais de 5,5 mil cidades brasileiras e participou de pouco mais de duas mil coligações – na imensa maioria das vezes como mero coadjuvante. O poder federal é o maior ofertante de recursos ordinários e extraordinários para a imensa maioria das cidades brasileiras.

Esses deputados estão conscientes da força que a organização territorial do partido pode significar para o seu futuro? Ano que vem teremos eleições municipais. Quantos prefeitos migrarão para o PSL? Quantos políticos locais vão buscar a sigla para utilizarem-se de sua atual popularidade – torcendo para que ela dure até lá – e ganharem a eleição? Quantos serão selecionados de forma acurada, demonstrando efetiva chance de conquista de espaço? Quem vai coordenar tudo isso? Como o país será dividido entre esses deputados eleitos na tarefa de coordenarem regionalmente a consolidação da legenda? Fernando Collor e seu nanico PRN ignoraram essa etapa entre 1990 e 1992 e afundaram, como sabemos. O PSL vai aproveitar a sede dos seus para convencê-los de que podem ser um partido grande? Saberão mostrar que a simples autorização para explorar a disseminação do partido já é um ativo expressivo para garantir uma necessária da governabilidade a Bolsonaro? O presidente/governo vai colaborar com essa estratégia? Ou vão efetivamente vagar pelo século XI no ritmo de Brancaleone?

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