O que esperar de Rondônia? As eleições de 2022 no reduto do Bolsonarismo na Amazônia

João Paulo Viana

02 de agosto de 2022 | 17h37

Nas eleições de 2018, o estado de Rondônia concedeu a Jair Bolsonaro (PL) uma das maiores votações entre os estados brasileiros. O caso rondoniense torna-se ainda mais interessante quando comparamos a votação para presidente nos municípios por unidade federada. Em recente levantamento realizado pelo Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia Legal verificou-se que Rondônia foi o único estado no qual o presidente Jair Bolsonaro, então filiado ao PSL, sagrou-se vitorioso em todos os municípios, no 1º e no 2º turno da disputa.

Ainda que recente, a emergência da extrema direita em Rondônia possui raízes históricas que podem ser observadas desde o processo de colonização do antigo Território Federal do Guaporé até a fundação do estado. Como assinalado em outras ocasiões em nossa coluna aqui no Legis-Ativo, uma combinação de fatores explica, pelo menos em parte, o ultraconservadorismo da atual política rondoniense. Área de fronteira, fundada sob forte influência militar e autoritária, terra do agronegócio, com um dos maiores rebanhos brasileiros e importante produtor de minérios, Rondônia conta também com um dos maiores eleitorados evangélicos do País.

Sob essa “combinação explosiva”, em meio a “onda bolsonarista” e o “lavajatismo” que dominaram a eleição de 2018, o estado também elegeu governador o coronel da Polícia Militar, até então outsider da política, Marcos Rocha, à época, filiado ao PSL junto com Bolsonaro. A presença de militares no poder é um traço marcante na política rondoniana desde a década de 1940. No período territorial, cerca de 70% dos governadores era militar do Exército. Menciona-se, entre eles, a figura do coronel Jorge Teixeira, ex-prefeito de Manaus, uma espécie de “Founding Father” rondoniense, último governador do território e o primeiro do novo estado. Até hoje, reverenciado pela opinião pública como o maior líder político do jovem estado.

Nesse contexto ultraconservador, Rondônia insere-se no quadro nacional como o reduto do bolsonarismo na Amazônia. Em que pese o fato de o estado possuir menos de 1% do eleitorado brasileiro, é notória a radicalização política à direita. Ademais, a agenda governamental está completamente alinhada ao bolsonarismo, o que inclusive vem rendendo ao estado elogios públicos do presidente, como mencionado aqui no Legis-Ativo em janeiro deste ano. Na ocasião, Bolsonaro parabenizava a Assembleia Legislativa de Rondônia por se posicionar contrária à exigência do passaporte vacinal. De fato, inúmeras foram as medidas aprovadas pelo parlamento, com o apoio do executivo estadual, em total consonância com os ditames do governo federal.

A força do bolsonarismo em Rondônia evidencia-se também pelo fato de que dois dos principais candidatos ao governo reivindicam o apoio público de Bolsonaro. O atual governador, Marcos Rocha, atualmente filiado ao União Brasil, e o senador Marcos Rogério (PL), ambos favoritos ao segundo turno durante toda a pré-campanha, se posicionam como candidatos do bolsonarismo. Há possibilidade de o presidente, pelo menos durante o primeiro turno, se posicionar neutro, ou optar por Marcos Rogério, tendo em vista ser membro de seu partido e um fiel aliado durante a CPI da Covid 19 no Senado Federal.

Não obstante o favoritismo do bolsonarismo durante a pré-campanha rondoniense, dois outros candidatos ao governo estadual podem surpreender e impedir um segundo turno totalmente bolsonarista em Rondônia. O deputado federal e ex-líder do Podemos na Câmara dos Deputados, Leo Moraes, que hoje busca ocupar um lugar à centro-direita, vem aparecendo nas pesquisas de intenções de voto como um nome com reais chances de chegar ao segundo turno da disputa. Embora alinhado ao bolsonarismo no início do mandato, Moraes vem tentando descolar sua imagem do presidente e se posicionar como uma terceira via da disputa. Com forte reduto eleitoral em Porto Velho, foi o parlamentar federal mais votado em 2018.

Quem pode causar surpresa também é o ex-governador Daniel Pereira, ex-filiado ao PT e PSB, hoje no Solidariedade. Colocado pela frente de esquerda durante toda a pré-campanha como uma opção ao Senado Federal, Pereira foi lançado à disputa ao governo às vésperas da convenção realizada no último domingo. Político experiente, habilidoso, com excelente trânsito entre sindicalistas e o alto empresariado rondoniense, Pereira conta com a união dos principais partidos de esquerda e centro-esquerda em torno de sua candidatura. Diante de um cenário dominado pelo bolsonarismo, o ex-vice-governador e governador se apresentará como uma alternativa à direita e centro-direita em Rondônia. Ainda que não seja uma tarefa fácil, dependendo do desempenho de Lula (PT) no estado e numa conjuntura de fragmentação do apoio à direita, Pereira pode surpreender e chegar ao segundo turno. E lá, como sabemos, trata-se de uma outra eleição.

Todavia, a radicalização conservadora em Rondônia caracteriza o estado como um case interessantíssimo para a ciência política brasileira. Embora haja chances de políticos moderados, à direita ou à esquerda, chegarem ao segundo turno contra um dos representantes do bolsonarismo, o ultra-conservadorismo agrário e religioso, com forte base de apoio no eixo da BR-364, região mais rica do estado, deve continuar majoritário nas composições da Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados e Senado Federal. Certamente, retornaremos ao tema em outubro próximo.

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