O preço das ações

Humberto Dantas

03 de dezembro de 2015 | 16h35

Cunha e Dilma viveram, por poucos meses, o que se poderia chamar de um frágil e desorganizado Presidencialismo de Cumplicidade. Por mais que a presidente evite ao máximo se deixar levar por acusações de que vive uma lógica de “toma lá, dá cá”, como ela mesma gosta de pregar, é fato que tal característica seja praxe em nossa forma de fazer política. Se ela evita tal terminologia, em parte, isso pode explicar a crise. Sem características de uma grande líder, Dilma tentaria refundar a política nacional sem respaldos mínimos. A catástrofe é clara e anunciada. Seu padrinho político, em contrapartida, é o ser político por natureza. O conflito inicial está instalado nessa relação, e contamina o PT – para muitos, alas do partido estariam querendo o afastamento da presidente em processo de impeachment. Assim, o cenário do impedimento começa dentro do partido que governa e se espalha para tantos outros espaços que transcendem o controle de quem imagina que, neste instante, consegue enxergar com clareza tudo o que está sobre a mesa. Mas voltemos ao nosso presidencialismo.

A cumplicidade parece dar espaço ao conflito. Cunha apontou faz poucos dias que não via motivos para processos contra Dilma e que tampouco trataria disso em 2015. Mas bastou o PT mudar de estratégia, ou apenas seguir o que o presidente da Câmara não ouviu, para que ele mesmo deflagrasse um processo que, inicialmente, dependia dele, mas agora parece escorrer por entre seus dedos. Cunha, para muitos, agiu como o terrorista acuado: detonou a bomba. Mas quem morre nesta história? O parlamento passa a ser senhor da situação de impeachment de forma mais ampla. Comissão será formada, Dilma apresentará sua defesa, o processo será analisado e, caso seja acatado, uma maioria qualificada é necessária na Câmara para o julgamento ocorrer no Senado e, por lá, com a presidente temporariamente afastada e sob a presidência do comandante do STF na sessão, mais uma vez é necessária maioria qualificada. Fácil? Não é fácil para ninguém, mas o governo do PT não é um cisco na democracia brasileira. Pelo contrário: falamos de um partido que, a despeito de semblantes de esfacelamento, tem um papel ainda central em nossa democracia. Dilma não terá vida fácil, mas é bem provável que possa, pagando um preço imenso, restabelecer a política de trocas que tanto resiste em assumir. A atitude de enfrentar Cunha foi radical, mas ela reduziu o poder de seu suposto algoz. Agora é pagar para permanecer, se é que ainda encontrará um caixa aberto para fazer o depósito.

Cunha, por sua vez, terá dificuldades aparentemente mais ácidas para manter posição. Sua salvação talvez esteja na conivência de seus parceiros. Se ele efetivamente operou um sistema de distribuição de recursos para seus pares, como sugerem algumas acusações, teria motivos de sobra para lembrar um antigo vereador paulistano que, acusado de corrupção, afirmou, instantes antes de sua cassação, que tinha os colegas nas mãos e no coração. Terminou salvo, mas sombriamente escantilhado. O governo e parcelas do parlamento parecem pouco incomodados com Cunha na Câmara, o que afeta demais é a posição dele como presidente. É disso que muitos querem se livrar. Fora dali, tudo se tornaria mais fácil ao restabelecimento de uma lógica de coalizão tradicional. Para tanto, até mesmo a estrutura do Executivo pode contribuir: a articulação política mudou e parece improvável pensar que o PT insistiria no erro de lançar candidato próprio para o lugar do possível defenestrado – isso se Cunha cair. A partir disso, um nome de consenso fora do PT seria o desafio – a um preço exorbitante. Vão os anéis da Presidente, mas poderiam se salvar os dedos. No caso de Cunha, o presidente pode perder os dedos, mas com ele podem restar alguns anéis.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.