O legislativo e a educação política – o que pensam os jovens?

O legislativo e a educação política – o que pensam os jovens?

Humberto Dantas

12 Dezembro 2017 | 13h27

Em 2003 escolhi trabalhar com o que costumo chamar de “educação política”. Trata-se de um desafio de disseminar conteúdos elementares atrelados a valores democráticos, bem como explicar o funcionamento de sistemas complexos como o eleitoral, o partidário, a estruturação dos poderes e das esferas de poder. Tais cursos mobilizaram dezenas de professores, a imensa maioria cientistas políticos; e milhares de alunos em mais de 500 iniciativas em diferentes estados do Brasil. Uma das ações mais emocionantes foi desenvolvida num bairro sofrido de Ananindeua, grande Belém, para um conjunto de operários de uma obra do “Minha Casa, Minha Vida”. A convite dos empresários, um trio de docentes foi perguntar o que era democracia, do que se tratava a cidadania e como se estrutura o estado brasileiro. Impressionante o olhar de alguns com as descobertas, a sede por política e os relatos após a atividade. Esses quase 15 anos de ações desse tipo mostram que o brasileiro está longe de odiar a política, mas muito próximo de conhecê-la pouco demais. O desafio é explicar.

Desde 2008, é nas periferias de São Paulo que ocorrem as ações que mais repetimos ao longo de nossa trajetória – 131 cursos desse mesmo projeto financiado pela Fundação Konrad Adenauer e repleto de parceiros. Inicialmente destinada a líderes comunitários que gravitavam em torno da rede dos Centros de Integração da Cidadania – programa da Secretaria da Justiça do Estado – a ação se destinou aos jovens do ensino médio a partir de 2011. Foi acerto expressivo trabalhar com a galera que vive nos extremos paulistanos ou nas cidades que compõem as franjas da região metropolitana.

Nessas iniciativas costumamos passar questionários de entrada e saída para avaliar impactos, percepções, sentimentos e noções. Uma das perguntas trata de entender a visão dos jovens sobre o que faz uma Câmara Municipal. Ofertamos algumas opções e damos liberdade para que marquem quantas acham que são, efetivamente, as funções do parlamento local. Os números carregam sentimentos diferentes: do otimismo ao lamentável impacto de nossa cultura política. O gráfico nos ajuda a entender o fenômeno com base nos resultados de entrada e saída do curso nos anos de 2016 e 2017.

Em linhas gerais é possível dizer que os estudantes chegam ao curso sabendo que a função do parlamento local é “fazer as leis da cidade”. Em 2016 isso parecia mais claro, e talvez o ano eleitoral tenha inspirado maiores explicações e debates dentro das escolas públicas onde esses jovens estudam. Em 2017 os volumes de percepção são menores e o aporte de nosso curso é quase inexistente, mas não podemos negar que a galera tem noção do que é a “casa das leis”, ou seja, mais de dois terços percebem o papel institucional formal de uma Câmara. Onde ganhamos muito com as ações é na percepção sobre a função fiscalizadora do parlamento. Na entrada as respostas anuais variam entre 45% e 50%, mas na saída ficam entre 60% e 70%, um ganho bastante significativo.

Negativamente pesa, principalmente, a quantidade de jovens que afirma ser o poder legislativo um local para que os eleitores conquistem “favores dos vereadores”. Os ensinamentos do curso arrefecem esse sentimento, mas ainda assim o fenômeno preocupa. Numa cidade da Grande São Paulo, que não cabe mencionar o nome, nós realizamos uma atividade junto à Escola do Parlamento local – importante canal de disseminação de conteúdos políticos fundamentais. Os profissionais da instituição atraíram para o curso os alunos do terceiro ano do ensino médio jovens de uma escola pública vizinha à Câmara. Por lá a percepção acerca dos favores beirou os 50% no início da atividade. O servidor parceiro da atividade nos explicou o resultado: “a Câmara é vizinha da escola e os jovens vêm muito aqui pedir para que os vereadores tirem xerox de caderno de aula, arrumem os currículos dos estudantes para o mercado de trabalho e façam outras gentilezas com a estrutura de gabinetes que fogem demais da verdadeira atividade parlamentar”. Como conter isso?

Pra terminar com uma boa notícia: cerca de 10% dos estudantes entram nos cursos admitindo que não sabem o que faz ou o que significa uma Câmara Municipal, e esse percentual cai pela metade depois de três encontros rápidos de três horas cada. A educação política vai fazendo seu papel, a cultura política o dela. Milagre não podemos fazer, mas certamente contribuímos com o adensamento do sentimento de democracia e o arrefecimento de males causados por quem dela se aproveita para disseminar o que há de mais difícil. Oxalá isso seja verdade!

1.Ficou curioso com o curso: conheça o livro que acabamos de lançar para contribuir com a formação e professores dispostos a aplicarem nossas atividades.

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