O impeachment em busca de um crime

Lucas Ambrózio

01 de setembro de 2016 | 11h20

Hoje é o primeiro dia em que acordamos sob o governo do presidente Temer, agora não mais interino. O processo de construção do impeachment foi bastante longo, discutido e envolveu inúmeras instituições. O seu desfecho já era bastante previsível e amplamente prenunciado.

Talvez a longa duração do processo nos dê a aparente sensação de que o entendimento em torno do afastamento da presidente tenha demorado a ser construído. Na verdade, este entendimento já estava dado, ao menos entre os que a julgaram, os parlamentares. Os placares do impeachment na Câmara e na votação final no Senado foram duas goleadas, algo do tipo 7×1. Na Câmara apenas 27,2% votaram contra o prosseguimento do impeachment e no Senado, na votação final, só 24,7% votaram contra o afastamento definitivo.

O tremendo esfacelamento da base parlamentar de apoio da presidente veio há algum tempo, e veio com tudo. Tudo que poderia ajudar. Ao ponto em que não sabemos o que gerou o quê, como um ciclo vicioso. Recessão, inflação, alta dos juros, Incapacidade fiscal, perda de popularidade, manifestações, erros de coordenação e estratégia política, etc.

A “solução” já havia sido escolhida, e passava pela saída da presidente Dilma. Fosse nosso regime parlamentarista, ela já teria sido aplicada há muito tempo, mas, como não o é, havia que se construir o crime. Isso, sim, não seria trivial e rápido.

Há nos estudos sobre organizações e tomada de decisão um modelo bastante pertinente para iluminarmos o presente caso do impeachment: o chamado lata de lixo (garbage-can model), desenvolvido por Cohen, March e Olsen, em 1972. Este modelo trouxe uma reviravolta sobre a forma de ver e analisar a tomada de decisão nas organizações. Se em outros modelos racionais de tomada de decisão as soluções (as decisões últimas) eram construídas a partir de problemas percebidos, neste modelo a lógica é contrária. Para certos casos, seriam as soluções que procuram os problemas. Soluções são postas e retiradas da lata do lixo de acordo com os problemas que vão surgindo. Certas vezes o que querem as organizações é implementar determinadas soluções, esperando apenas o momento propício para a construção do problema ideal para aquela solução.

Apesar de o encontro do problema com a solução poder ser casuístico, ele pode também ser construído pela presença de líderes com boa sensibilidade de leitura da arena decisória e com profundo conhecimento dos regulamentos. Escolhida a solução, a construção do problema ideal pode ser alvo da atuação de lideranças que deverão:

1) Entender cuidadosamente o momento certo de mobilização de cada elemento da construção do problema – exemplo: momento propício para acatar o pedido de impeachment;

2) Ser sensíveis às mudanças de interesses e predisposições de envolvimento dos participantes – exemplo: no início dos pedidos de impeachment, o vice presidente ainda não estava convencido de sua viabilidade, posteriormente isso mudou;

3) Identificar nas situações de escolha as implicações de status e poder – exemplo: os articuladores conseguiram deixar claro os ganhos que cada um dos participantes teriam;

4) Abandonar iniciativas que envolvam outras pessoas não comprometidas – exemplo: as iniciativas apresentadas pelos interlocutores do governo estavam sendo analisadas, mas foram abandonadas;

5) Realizar planejamento, como parte simbólica e desculpa para a articulação – exemplo: o plano esboçado de recuperação da economia brasileira.

Se pudesse iluminar apenas o começo desse processo, certamente destacaria a campanha de eleição do deputado Eduardo Cunha para a presidência da Câmara no final de 2014. A principal bandeira da campanha de Cunha, que uniu oposição e boa parte dos governistas, era o resgate do protagonismo do Parlamento, ao seu entendimento, aviltado pelo Executivo. Sob esta perspectiva, mesmo que destituído da presidência da Câmara, o projeto parlamentar liderado por Eduardo Cunha só teria se completado ontem.

Lucas Ambrózio é cientista político, doutorando em Administração Pública e Governo pela FGV e pesquisador do CEMF-FGV.

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