O Fator Lula

Araré Carvalho

15 de março de 2016 | 15h59

A volta de Lula para o governo validaria a tese de muitos de que ele nunca o deixou e/ou de que ele estaria assumindo culpa em relação às denúncias que pesam sobre ele. Dilma padece de uma série de problemas, mas sempre deixou claro de quem era o posto de mandante. Ainda que recorresse ao mentor em vários momentos, Dilma traçou seu caminho, ainda mais no tocante à condução da economia. Num momento de crise como esse, as vaidades ficam em quarto plano? Se for para salvar seu governo, Dilma com certeza abrirá mão da vaidade e dará o cetro ao ex-presidente. Muitos acreditam que no caso dela é escolher a quem entrega o governo: a Lula ou a Temer. Lula acena que sua ida para o ministério tem como condição uma mudança na condução da economia.

Neste cenário, Dilma dividiria com Lula o peso de um fracasso. Já uma possível melhora, ainda que pequena, no cenário político e econômico será totalmente capitalizada por Lula. Mas, diante da atual conjuntura, o que ambos têm a perder? A ida do ex-presidente para a Casa Civil ou Secretaria do Governo mudaria os rumos da sua investigação. Ele teria de ser investigado pelo STF, tirando das mãos de Moro e da Lava Jato seu destino.

Quanto à condição da mudança da política econômica, Lula tentará repetir o que fez em seus governos e investir tudo na retomada do consumo? A percepção da política, por grande parte da população, está atrelada às condições econômicas. Explico: quanto mais a população se sente inserida no processo de consumo, compra e venda, mais entende que a política vai bem. Lula sabe que a resolução da crise política anda de mãos dadas com uma mudança no cenário econômico. Esperar se resolver a celeuma política para dar-se fluidez à economia é um luxo que o governo não tem. Possivelmente ele apostará mais uma vez no aumento de liquidez de mercado e em obras que captem a mão de obra menos qualificada – a primeira a ser afetada em tempos de crise.

Mas essa mudança de rumos econômicos não corresponde às únicas condições. Lula é uma sombra do que já foi, mas ainda assim tem o poder de aglutinar parte dos congressistas. Com efeito, a volta dele para Brasília é temida pela oposição, que corre para fechar alianças com o PMDB para tirá-lo do governo. Aliás, nunca entendi muito bem isso. Como tirá-lo do governo? Pelo que consta, o PMDB também foi eleito para ser governo – por mais que no Senado Romero Jucá concorde com isso e depois diga que os partidos se afastaram de forma expressiva. Juntamente com o PT, formavam uma única chapa. Mas, voltando à ida de Lula, a parte oposição do PMDB e o PSDB sabem que Lula deve reunir parte dos deputados do PMDB em torno da sua figura. O possível novo ministro já fez essa consulta, não é bobo, quer saber as reais condições da base de apoio no Congresso com a sua figura agora ancorando o governo.

Enquanto isso, PSDB e PMDB se reúnem para pensar no pós-Dilma, certos de que o governo acabou. O modus operandi deve ser o mesmo. O Partido que possui 7 ministérios, o vice-presidente, o presidente do Senado e da Câmara está negociando com o PSDB a partilha das instâncias de poder num futuro governo Temer. Projeto para o país sobre o que está posto aí não se ouve uma vírgula, no plano da mudança efetiva nada é apresentado. Uma troca de governo apaziguaria momentaneamente os ânimos e a crise. Mas, sem as reformas necessárias, é questão de tempo até a crise retomar seu ritmo atual. E com um problema a mais: uma “esquerda” com raiva e querendo ir à forra.

O retorno de uma figura como Lula ao jogo político institucional altera muito as relações de força, para o bem e para o mal. Bagunça-se todo o jogo novamente e o que era certo volta a ser incerto. Dilma tem poucas opções para viabilizar seu governo. As manifestações do fim de semana não colocaram nenhum ingrediente novo, a despeito do expressivo volume. Apesar de grande, segundo pesquisas, ela continua marcadamente composta pela classe média e alta – que legitimamente se manifestam, mas têm se manifestado desta forma faz tempo. Ou seja, a base de apoio popular de Lula estaria lá, pronta novamente para ser capturada e entrar em cena? A questão é compreender se ainda estaria disposta a jogar a favor do seu líder maior, ou se está absolutamente afetada e desgostosa com a situação econômica do país.

Existe, por fim e ainda, um agente silencioso em todo esse processo que se iniciou nas jornadas de junho de 2013. Esse ator que ainda não apareceu na atual disputa política é justamente a reunião das classes C, D e E, alvos das políticas governamentais nos anos Lula/Dilma. Bolsa família, luz para todos, Minha casa Minha vida, Prouni são políticas voltadas para esse filão da população. Essa parte beneficiada durante esses anos de governo petista, com certeza está reclamando da atual condição do país, está insatisfeita com a esta situação, mas ainda não aderiu ao discurso do “Fora Dilma” que, para além do bordão, não apresentou nenhuma proposta de fundo que conseguisse conquistá-los. Lula pode ser o catalisador, mais uma vez, desta parte do povo que por enquanto se coloca à margem deste processo, mas que é o mais afetado pela crise? Se Lula conseguir emular minimamente o que foi no passado, poderá salvar a si e dar tons menos tristes ao fim deprimente que se avizinha para o governo de sua pupila. Neste sentido, veríamos se ele é o camisa 10 de Berzoini ou o jogador de pé quebrado, segundo Dora Kramer, colunista do Estadão.

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