O “centrão” vem aí… Olê, olê, olá…

Bruno Souza da Silva

13 Setembro 2018 | 18h15

Em tempos de extremismo, a busca por um caminho intermediário soa como logicamente desejável, isto é quando consideramos que nossa democracia é consensual, levando em conta principalmente a tipologia de Arendt Lijphart, especialista em regimes democráticos comparados. Vale lembrarmos que polarizações muito próximas às pontas do espectro político, tanto à direita quanto à esquerda, tendem a ser perigosas, pois dificultam a negociação política, sem contar quando a inviabilizam. No limite, ajudam a alimentar a intolerância, característica em alta no debate público nacional. De maneira geral, ao menos desde 1994 até hoje, o sistema político brasileiro deu conta de limar os extremos e polarizar na direção cada vez mais próximo ao centro, oscilando entre projetos nacionais do PT e do PSDB. Ambos os partidos deram conta de servir como polos de atração aos seus governos, trazendo para junto de si partidos com força política dentro do Legislativo, uma vez que, sozinhos, jamais alcançariam maioria. Lembremos de que para chegar ao poder e se manter nele por quase 14 anos, o PT caminhou para o centro.

Nunca é demais resgatarmos a ideia de que um sistema multipartidário “força” os partidos a dialogarem, estabelecerem alianças eleitorais e a formarem governos de coalizões, ao menos tendo como referência o que sabemos até aqui sobre a organização e funcionamento do nosso sistema político. Portanto, em alguma medida, existem atores e partidos que buscam um caminho mais ao centro, ao operar como fiéis da balança nas decisões legislativas e na sustentação dos governos. Nos últimos tempos, ganhou destaque na mídia o chamado “centrão”, grupo político formado por partidos e líderes de expressividade no Congresso, cujo apoio importa para aumentar as chances de sucesso eleitoral. Mas, afinal de contas, o “centrão” realmente existe? Se existe, ele é mesmo tão importante? Por que se fala tanto nele?

Na prática, o “centrão” não é coeso do ponto de vista programático ou ideológico. Caracterizado por posturas conservadoras e por algumas das siglas reunirem dentro delas o que há de mais retrógrado na classe política, o fato é que esse grupo ganhou destaque nacional.  Embora haja certa convergência mais à direita, o grupo de partidos que assim é conhecido, atualmente é formado por DEM (antigo PFL), PR (estruturado principalmente a partir do antigo PL), PP (ex-PPB, PPR e PDS), PRB e o SOLIDARIEDADE. As lideranças desses partidos resolveram, neste ano, apoiar a candidatura do tucano Geraldo Alckmin, por meio da construção da narrativa de união nacional (nome dado, inclusive, à coligação do candidato), lançando-se como capazes de sustentarem um eventual governo do PSDB, através da convergência de ideais da futura coalizão, somadas aos parceiros que já estavam com o tucano e se encaixam bem nesse perfil de partido – essencialmente no caso do PSD e PTB. Se no plano do discurso o objetivo é tentar convencer o eleitor sobre a capacidade do grupo em fazer política institucional e garantir a estabilidade política após o mandato turbulento Dilma-Temer, no plano prático essas siglas congregam caciques políticos já conhecidos, os quais sabem liderar o jogo de poder dentro do Legislativo e almejam as presidências da Câmara e Senado dentro do acordo partidário entre cavalheiros.

Hoje, esses cinco partidos inicialmente destacados controlam quase 32% das cadeiras na Câmara dos Deputados (164), considerando que o DEM obteve muitas cadeiras no período da janela partidária do começo do ano. Somando-se a elas, as cadeiras do PSD e PTB, membros da coligação de Alckmin, e o próprio PSDB, chega-se a 54% das cadeiras (267). Obviamente, isso não significa que os partidos podem manter a mesma representatividade nestas eleições, afinal, eleições proporcionais são muito competitivas. Também não significa que serão 100% fieis às agendas do presidente que apoiam. No entanto, um olhar para o passado nos ajuda um pouco a visualizar o futuro, isto é, nos revela que os partidos de expressividade se mantêm representativos e competitivos, independentemente da candidatura que apoiaram ao Executivo federal ao longo da História recente da política nacional.

Em 1998, dentre os partidos do atual “centrão”, tínhamos PFL (DEM), PL (PR) e PP, os quais, em conjunto, conquistaram 34,5% das cadeiras naquele momento (177). Em 2002, estes três partidos detinham 30,9%. Em 2006, já havia sido criado o PRB no ano anterior e o PR se estruturava, e os quatro partidos somados iniciavam nova legislatura com 25,3% das cadeiras (130), em um cenário de aumento da fragmentação partidária no Legislativo (a qual em 2018 chega a quase trinta partidos representados na Câmara dos Deputados). Juntos, nas eleições de 2010, PP, DEM, PR e PRB possuíam 26,5% das cadeiras (136). E, por último, em 2014, o SOLIDARIEDADE, que tinha se organizado em 2013 e, o hoje conhecido “centrão”, havia conquistado 25,1% das cadeiras (129). Embora observe-se uma diminuição progressiva no percentual de lugares conquistados por esses partidos, a matemática das eleições não pode ser jogada no lixo pelo presidente que virá. Ao menos, não por parte daqueles que compreendem os meandros da negociação junto ao Legislativo. Caso os tucanos sagrem-se vencedores, iniciar um mandato com partidos que tendem a compor a futura coalizão, sabendo da sua força no Legislativo, não será nada mal.  Todavia, não é apenas a relativa força eleitoral que chama a atenção.

No Legislativo, tais partidos são, além de governistas, muito disciplinados. Estiveram em diferentes lados ao longo dos governos FHC, Lula e Dilma, porém, quando apoiaram os governos, ofertaram peso político à aprovação das suas agendas. Apenas para ilustrar, baseado no Banco de Dados do Legislativo do CEBRAP, temos que: o antigo PFL, hoje DEM, nos dois governos FHC (1995-2002), apresentou uma média da taxa de governismo em mais de 92%. Nos governos Lula (2003-2010), razão pela qual hoje várias lideranças o identificam como a herança maldita, a sua taxa de governismo era superior aos 60%. Já o oposicionismo foi evidente somente no governo Dilma (2011-2014), com o índice de apenas 33,9% de governismo e, o situacionismo, que volta com mais força no governo Temer, com 64,6%. Ao olharmos para o PPB, atual PP, nos governos FHC sua taxa de governismo foi acima de 85%. Nos governos Lula foi de quase 88%, ao passo em que no governo Dilma havia sido de 75,4% e, no atual governo Temer, é de 73,7%. Em poucas palavras, estamos diante de partidos muito governistas e que sabem da sua força interna no Legislativo.

E para quê fazer toda essa digressão? Será que já paramos para pensar que as alianças políticas, os acordos partidários e os cálculos eleitorais das siglas levam em conta o que elas já são para virem a ganhar mais espaço ainda? Os que se apresentam como novo, são realmente tão novos assim? Particularmente e com toda a sinceridade… Em política há pouco ponto sem nó. A música parece ecoar: o “centrão” vem aí, olê, olê, olá… Quantas cadeiras ele vai levar?