O brasileiro precisa de autocrítica

Leon Victor de Queiroz

11 de março de 2021 | 19h44

*Texto escrito em parceria com Guilherme Padilha, psicólogo (CRP 02/24062) pela Faculdade de Ciências Humanas – Esuda. É comunicador social pela PUC-Minas.

Tão comumente colocados como pares de opostos, sem dúvida é por meio do ódio e não do amor que talvez consigamos nos satisfazermos de forma mais imediatista. Eliminar o diferente, quer seja uma pessoa, um ponto de vista ou qualquer objeto que nos incomoda faz com que reestabeleçamos um estado pregresso das coisas e, assim, a energia da mudança é poupada. Amar é muito mais sofisticado, está na ordem da negociação, da abdicação, da alteridade e, sim, da crítica, de si, dos outros e das circunstâncias. Ama-se “apesar de”, odeia-se “pois”. Daí ser tarefa hercúlea explicar a realidade a uma pessoa raivosa, cheia de certezas e sem dúvida alguma de suas convicções baseadas no que ouviu falar. Quando se diz que a terra é plana e pedimos que se olhe no horizonte imediatamente, está ali a evidência que prova o argumento, a não ser que a outra pessoa saiba que devido à esfericidade e à ótica é impossível enxergar além de uma certa distância. Tarde demais, o terraplanista já se convenceu da retidão do planeta e você por mais conhecimento que tenha, não conseguirá ir além. O senso crítico nunca é dado a priori, é preciso um esforço constante de questionamento para que se dobrem verdades que se deitam sobre a linha reta do horizonte.

Expandir o próprio ponto de vista e abrir mão de posições individualistas é a premissa para a vida em sociedade, da criança que tem seus horários definidos de dormir pela sua família ao mais alto cargo político, que nesta nação, teoricamente, está subordinado à Constituição. Se na infância é aprendendo a lidar com a frustração que aprende-se a viver em grupo, como cidadão não seria diferente, é preciso muito compromisso com o que é público, que democraticamente resguarda o seu próprio direito de ter direitos, para assumir as responsabilidades em vez de terceirizá-las. É comum ver o mesmo grupo de pessoas que cobra ética na política, driblando o Fisco ao não emitir nota fiscal como profissional liberal ou ocultando patrimônio, alegando que o governo gasta mal o dinheiro dos impostos. Ora, não cabe ao cidadão deixar de pagar com base nesse argumento, e sim aos órgãos de fiscalização e controle, inclusive, podendo ser com base em denúncia desse cidadão que argumenta não haver boa gestão. A responsabilização correta é fundamental e faz parte do planejamento da solução, pois com as responsabilidades devidamente colocadas, é possível ver qual agente ou instituição deve sofrer accountability, ou seja, é saber qual peça está funcionando mal e prejudicando o desempenho da engrenagem.

A classe política sofreu muitos desgastes perante a opinião pública em função da operação lava-jato, com exposição quase que em 24h por dia na mídia. Reputações foram destruídas e outras foram forjadas desde então. Agora, com um protagonismo maior das redes sociais (um ambiente com pouco controle dos grandes conglomerados da comunicação) ficou mais fácil aniquilar a credibilidade, seja com verdades ou mentiras (fake news). Se de certa forma caminha-se para uma suposta horizontalidade das informações com as novas mídias, junto com o imediatismo da comunicação retoma-se a sofística e induzir ao erro se torna das mais pesadas armas políticas.

A polarização, que tem se mostrado como dos maiores sintomas do ódio na esfera social, não dá sinais de arrefecimento e com as recentes decisões do Ministro Edson Fachin e do Ministro Gilmar Mendes, ela será agravada com o tão esperado embate eleitoral entre Lula (maior líder da esquerda) e Bolsonaro (maior líder da direita). O cenário que se monta na lógica do discurso político do senso comum é bem simples: amo meus prediletos, odeio meus adversários e, se são inimigos, o meu vencerá custe o que custar, mesmo que a conta chegue em formato das mais altas lisonjas antidemocráticas, as fake news, e as mirabolantes manobras jurídicas. Mercados estremecem e de repente, a responsabilidade da alta do dólar e da queda da Bolsa é em função do reconhecimento da mais alta corte do país dos problemas construídos pela lava-jato? Tudo bem termos uma variante viral para chamar de nossa, com mais de 260 mil mortos e uma vacinação ainda lenta, mas o que causa pânico é o PT garantir vaga no segundo turno, e talvez até vencer o pleito? É preciso fazer uma autocrítica.

O brasileiro precisa refletir sobre sua estrutura de crenças, onde ele consome informações. Precisa ser mais exigente no olhar, enxergar além do que lhes é mostrado ou dito. Não há uma grande verdade toda que dará conta de sustentar uma posição singular e ao mesmo tempo social, quer dizer, essa necessidade que se tem de estar do lado completamente inequívoco. Só há crítica se há autocrítica, pois se não há capacidade de se distanciar de si mesmo e questionar-se, toda e qualquer crítica parte de um lugar inerte que busca apenas reorganizar tudo aquilo que está fora de mim mesmo ao que serve aos meus desejos mais íntimos. Se internamente, pela absorção das normas culturais, eu me instauro socialmente e passo toda a vida encontrando formas de driblar minhas plenas satisfações odiosas em relação ao outro, pela educação busca-se nivelar esse pacto continuamente.  Esse é o papel da educação, mas ela leva muitos anos para conseguir ter êxito e precisamos dessa reflexão por agora.

Estados estão se unindo para traçar um plano de atuação emergencial de controle da pandemia e o Legislativo se une ao Banco Central para organizar a agenda fiscal. O poder não admite vácuos. É inócuo transferir as responsabilidades. Todos nós temos responsabilidade. A do brasileiro comum é a de usar máscaras da forma correta (não embaixo do queixo nem do nariz), evitar aglomerações (muitos já sofrem com o transporte público, não precisam adicionar outras aglomerações). E como também podemos nos responsabilizarmos pelo outro? Como é vista aquela senhora da fila que pede para que o outro que aguarda a vez, coloque a máscara corretamente? Quantos lhe dão suporte nessa tentativa de estabelecer a ordem da saúde comum e quantos silenciarão? Aos donos de estabelecimentos comerciais como bares e restaurantes cabe a correta fiscalização dos seus clientes. Ora, se são capazes de expulsar uma pessoa pobre que pede esmolas pelo desespero da fome, também podem expulsar quem circula pelo salão com um copo de bebida na mão sem máscara. O mesmo vale para os shopping centers.

Policiais têm arriscado suas vidas e de suas famílias ao cumprirem as determinações de fechamento de festas clandestinas (e aqui uma pausa: como festejar com tantas mortes? Não estamos falando do aniversário de um ente querido, falamos de uma festa para milhares de pessoas, todas sem máscaras, bebendo coladas umas nas outras, disseminando ainda mais o vírus que, mais adiante, pode ceifar-lhes a vida). O comportamento errático do brasileiro no plano individual, cobrando ética quando não tem, criticando a pandemia quando dissemina o vírus, somado à transferência de responsabilidades entre as esferas de governo nos põe diante de um curso de ação inexorável: precisamos refletir, olharmos para dentro de nós, chamarmos a nossa responsabilidade e assumirmos um comportamento cooperativo. Enquanto vigorar a maximização individual, talvez tenhamos breves momentos de prazer, mas a que custo? Afinal estaremos fadados ao fracasso coletivo e, no fim, a morte é certa.

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