O ativismo dos Deputados do PSL

Cláudio André de Souza

23 de outubro de 2018 | 18h24

As eleições para o Legislativo ocorridas no início do mês revelaram uma repulsa da maioria dos eleitores ao sistema político. As responsabilidades recaíram sobre políticos tradicionais em um momento de generalização do sentimento de corrupção no país, ainda como efeito da Lava Jato, dando alguma vantagem aos candidatos sem mandato e portadores de um discurso de renovação da política. Foram 274 novos deputados eleitos (53,41%), levando políticos com carreira e experiência à Câmara dos Deputados, mas também uma parte significativa de lideranças “neófitas” com um ativismo político recente.

Até aqui, os resultados do primeiro turno mostraram que uma parte considerável dos votos dados a Jair Bolsonaro “nacionalizou” a eleição para os demais cargos por todo o país. O maior vencedor das eleições foi o PSL, que elegeu uma bancada na Câmara de 52 deputados (em 18 estados) e no Senado houve uma alta de 4.247% no número de votos recebidos. Em 2010, a sigla recebeu apenas 446,5 mil votos; já em 2018, foram 19,4 milhões de votos. O partido elegeu quatro senadores.

Nas assembleias estaduais, o PSL subiu de 16 para 76 cadeiras. O partido elegeu a maioria destes em quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Espírito Santos. Impulsionado pelos votos em Janaína Paschoal, que bateu o recorde de 2 milhões de votos, o partido teve 15 cadeiras. No Rio, com Rodrigo Amorim, foram outras 13 cadeiras.  A legenda não elegeu deputados em apenas cinco estados (Amapá, Pernambuco, Piauí, Roraima e Sergipe), além do Distrito Federal.

Os votos do PSL na disputa eleitoral “arrancou” parte dos espaços de outros partidos, como o MDB e o PSDB.  A derrota dos partidos de centro-direita abriu espaço para a extrema direita, que capturou votos com base em pautas sobre liberação e flexibilização do comércio e porte de armas, educação e “erotização infantil”, debates sobre gênero e direitos humanos, etc. As agendas mais concretas sobre políticas públicas foram soterradas durante as campanhas diante de propostas que estiveram longe de atacar problemas concretos.

De ator pornô ao herdeiro da monarquia, a eclética bancada de Bolsonaro na Câmara tem pontos em comum: todos os candidatos se utilizaram de uma “campanha digital” segmentada para públicos específicos com o uso das redes sociais, há uma parte de empresários relativamente com um discurso ultraliberal na economia e, por fim, se destacam com um ativismo conservador reverberado após o processo do impeachment com mobilizações antipetistas e que legitimaram o processo de afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Ou seja, há em curso a construção de uma dinâmica de “representação participativa” entre eleitos e eleitores que durante um tempo foi monopólio da esquerda, em especial, do PT, diante da perspectiva de ter mandatos que levavam à frente uma ação movida em nome de representados organizados socialmente.

Poucos debates na imprensa e nas redes sociais se deram conta que a bancada do PSL, mas também de outros partidos, foram germinados numa dinâmica de mobilização das ruas. Talvez, os três fatores que devemos ter atenção daqui por diante diz respeito a: 1- como os mandatos legislativos da bancada do PSL, em especial na Câmara dos Deputados, serão capazes de segmentar as suas ações lastreadas nas redes sociais; 2-como envolverão eleitores e apoiadores na dinâmica de construção efetiva do dia a dia da produção parlamentar. 3- por fim, como estes deputados ativistas buscarão se ligar às dinâmicas de mobilização mais amplas para a defesa de pautas e agendas dos seus respectivos mandatos.

Este viés de ativismo social e político, independentemente das pautas ideológicas, ajudará na construção de mandatos mais responsivos? Não somente o PSL, mas a renovação de políticos eleitos traz como marca a ascensão de forças partidárias de direita e esquerda que são novos líderes em torno de novas morfologias sociais na construção de protestos, mobilizações e outros repertórios de ação coletiva.

Estamos diante de deputados ativistas que serão desafiados a pensar formas de representação para eleitores mais exigentes, que acompanham a política mais de perto. Não serão julgados apenas pelo que pensam sobre questões morais e pautas específicas, mas farão parte de uma dinâmica institucional que freia as ruas como espaço do fazer político. Terão que representar e participar, assim como os partidos de esquerda têm feito nas últimas décadas desde a redemocratização. Os partidos de direita e extrema-direita unirão representação e participação na construção de mandatos parlamentares mais próximos dos eleitores?

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