O ativismo de internet: o peso das ruas e a votação da denúncia contra Temer

Araré Carvalho

01 Agosto 2017 | 17h28

Temer é um habilidoso negociador. Consta que tenha ligado pessoalmente para mais de 160 parlamentares nos últimos dias, recebido outros tantos para jantar, e indicado a seus ministros que atendam os pleitos dos congressistas. Temer necessita de 172 para barrar o prosseguimento da admissibilidade da denúncia da Procuradoria Geral da República contra ele.

Para garantir o quórum mínimo na sessão que votará a denúncia da PGR, o governo estimula a presença dos parlamentares da oposição e tenta persuadir os indecisos que declararem abstenção na hora de votar. Deputados da oposição, por sua vez, parecem não saber como proceder: estão divididos entre votar agora e perder ou protelar a votação a espera de novos fatos que imputem uma derrota ao governo. Temer arrisca um pouco mais, nesse momento, em nome de sepultar essa denúncia. Caso o quórum mínimo não seja atingido, o governo deve culpar a oposição e atribuir a ela o desejo de manter o país numa turbulência sem fim.

Em que pese os últimos resultados das pesquisas de opinião pública, em que o governo Temer aparece com 7% de aprovação (menor índice desde Sarney), o Congresso parece viver uma lógica própria. Não que isso seja novo. A desaprovação do governo pela maioria da população parece não impedir o apoio de grande parte dos deputados ao presidente. Certamente os deputados apostam no esquecimento da população. A oposição, por sua vez, engendra uma maneira de marcar, junto à opinião pública, o nome dos apoiadores de Temer e reforçam suas posições contrárias como forma de capitalizar eleitoralmente. É óbvio que o número elevado de deputados, o tempo, e o grande número de candidatos fará com que parte dos que votaram a favor do governo sejam esquecidos na próxima eleição.

O governo se mostra convicto de que não haverá os 342 votos necessários para dar prosseguimento à denúncia. Mas por que isso acontece se a opinião pública, majoritariamente, é a favor da instalação do processo?

Me parece que a questão central, novamente, é a mobilização social. Tanto no impeachment de Collor em 1992, como no de Dilma, em 2016, as ruas se mobilizaram fortemente, ainda que por motivos diferentes. É certo que esses presidentes citados não gozavam do mesmo prestígio junto ao Congresso como Temer possui. Mas é inegável que o ingrediente “rua”, ajudou a catalisar os votos dos deputados, seja por convicção, seja por oportunismo.

Collor caiu porque não conseguiu controlar a inflação, que chegou na casa dos 2.700% ao final de 1992, mas não só por isso. O governo Sarney padeceu do mesmo problema e no entanto não foi impeachmado. As propostas neoliberais apresentadas pelo governo Collor, que previa abertura para mercadorias estrangeiras e a privatizações de estatais, se chocaram com o interesse de duas frações da burguesia nacional, a saber:  a industrial, que temia a concorrência de produtos importados, e a burguesia estatal, aquela vinculada a empresas públicas. O projeto de governo de Collor não conseguiu a coesão da burguesia nacional. Essa mesma burguesia acabou apoiando o impeachment (Collor foi acusado de ser favorecido de um esquema de corrupção que envolvia seu assessores) de quem não atendia mais aos seus anseios. A imprensa, que durante a campanha abraçou fortemente a candidatura de Collor, convocava agora a população para ir às ruas vestidos de preto e com a cara pintada nas cores do Brasil.

No caso do impeachment de Dilma em 2016, devemos remontar às jornadas de julho de 2013. Lá, parte da população não atendida pelos programas dos governos petistas começavam a se manifestar. Os programas de Lula e Dilma eram essencialmente voltados paras classes C, D e E. A classe média foi pouco impactada por esses governos. Por isso reivindicavam hospitais, estradas e escolas padrões FIFA. Após a reeleição de 2014, dois problemas seguiram, o primeiro dele foi o “estelionato” eleitoral. O governo Dilma havia assegurado o reajuste de vários produtos e serviços, como energia, combustível, entre outros, sendo todos reajustados pós-eleição. E, por outro lado, o desejo da oposição em não reconhecer a vitória de Dilma. Houve processos, recontagem de votos. Como disse o próprio Aécio, a intenção era “encher o saco do PT”. Soma-se a esse cenário a inabilidade da ex-presidente em negociar com o legislativo. Pronto, a química do impedimento do seu mandato estava concluída. O aumento de impostos, serviços, uma oposição pouco programática, e o aumento do desemprego levaram milhares de pessoas às ruas, pedindo “fora Dilma”.

Ainda que por motivações diferentes, a ida do povo às ruas – seja os “caras pintadas” ou “os paneleiros” – foi de grande valia para pressionar os deputados. Mas o grande enigma é por que essa população que desaprova o governo Temer, que deseja que o processo contra ele seja instaurado, não vai às ruas?

Grande parcela da população que se manifestou pelo impedimento de Collor e/ou de Dilma nutria a esperança que a queda do governante traria uma melhora ao país. Hoje, a queda de Temer motiva essa mesma visão nas pessoas? “No que sua saída mudaria as condições do país?”, pensa o povo. Rodrigo Maia seria uma possibilidade de resolver os problemas do país? Uma eleição direta, com os candidatos que se apresentam, figura como uma novidade capaz de reaglutinar o país em torno de um projeto novo de nação?

Parte da esquerda, partidos e movimentos sociais, parecem viver um luto. Daqueles que passamos depois de um parente sofrer por meses de uma doença terminal (leia-se governo Dilma), e agonizar em público. Quando morre, é um misto de alívio, resignação e tristeza.  Talvez por isso não tenham conseguido se reorganizar e apresentar uma opção ao que está posto, ou ao menos liderar manifestações que tenham relevância nas decisões do legislativo e que rompam com o ativismo de internet – que é grande, mas parece não impactar nas decisões dos deputados.

A base de Temer deve barrar essa denúncia que será votada amanhã. Janot diz que tem bambu para muitas flechas. Muitos analistas acreditam que as próximas denúncias da PGR (Procuradoria Geral da República) contra Temer serão mais consistentes e podem levar à instauração do processo de impeachment. No entanto, sem um fato novo – leia-se uma denúncia arrebatadora, novos áudios e/ou uma bomba vinda de Eduardo Cunha – será difícil, sem a volta das manifestações de rua, que Temer não complete o seu mandato.