O arranjo duvidoso fracassou, é a hora de eleições diretas?

Lucas Ambrózio

18 de maio de 2017 | 21h25

*Em co-autoria com Humberto Dantas.

O caminho proposto pelo Congresso Nacional de levar adiante o impeachment da então presidente Dilma Rousseff em dezembro de 2015 já deixava claro que apostar e construir o governo Temer era o arranjo que os parlamentares buscavam empreender naquele momento. A discussão dos crimes de responsabilidade era mera formalidade em um julgamento fortemente político – como em todos os impeachments – que deveria ser construída para atender a esta finalidade, como já argumentamos aqui.
Embora não se trate de eleição indireta, o impeachment é um mecanismo de controle político direto do Legislativo sobre o Executivo e contou com a aprovação de mais de dois terços do Parlamento – lembrando que à época alguns parlamentares que votaram contra Dilma discursaram que a “hora de Eduardo Cunha e de Michel Temer iria chegar”. O Congresso, assim como diversos partidos da então oposição ao governo, além de apoiar maciçamente o impeachment, assumiu o protagonismo do novo governo. A composição do gabinete de Temer promoveu forte distribuição de postos ministeriais entre os distintos partidos políticos. Foi a experiência, neste sentido, de maior presença de ministros vinculados às legendas. Quase todos.
Esta era uma aposta arriscada, em um momento de crescente desgaste das lideranças partidárias e de parlamentares por causa das investigações da operação Lavo-Jato e de diversas outras ações e julgamentos de corrupção. Por diversas características institucionais que conferem desde foro privilegiado a membros do alto escalão governamental até significativa influência do Executivo e do Legislativo sobre a nomeação de magistrados e de dirigentes dos órgãos de investigação, políticos envolvidos em operações da justiça eram atraídos para os postos de comando da República.
Tal aspecto serviu – ou ainda serve – como alternativa de autodefesa que restou para muitos, mas por outro lado tornou o país ainda mais vulnerável e exposto à crise política. Isso, infelizmente, parece incluir o próprio presidente neste instante.

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