O analista, o número e a informação

Humberto Dantas

12 de março de 2021 | 14h00

*Texto escrito pelas cientistas políticas Michelle Fernandez, Joyce Luz, Carolina Corrêa, Luciana Santana e Graziella Testa; e pelos cientistas políticos Humberto Dantas, Cláudio André, Vítor Sandes, Bruno Silva, Leon Victor Queiroz, João Paulo Viana e Vitor Oliveira.

Números são frios e permitem distintas interpretações dos fenômenos que sinalizam. Quando combinados nos permitem a promoção de análises em diferentes sentidos, e por vezes direções. Sem complexidades ou cruzamentos, pense num candidato que tenha 2% das intenções de voto numa dada pesquisa e no levantamento seguinte, do mesmo instituto, apareça com 4%. Visões otimistas vão dizer que ele dobrou de tamanho em certo intervalo de tempo, visões neutras vão procurar a margem de erro e podem afirmar que a oscilação ocorreu dentro desse intervalo. Os pessimistas, ou realistas, diriam que com 4% as chances são reduzidas naquele instante.

Tudo isso ocorre a partir do número dado, ofertado, consolidado. Mas o analista precisa partir de uma premissa basilar: ele confia no número. E para tanto, tem que dar credibilidade ao método, que envolve aspectos associados à amostragem, ao questionário, à aplicação etc. Costumamos dizer em pesquisa que entre a ideia de conhecer um fenômeno e o resultado do levantamento só existe perda de informação. O cliente que encomenda uma pesquisa apresenta uma ideia e um desejo de conhecer algo. Dali adiante, os custos do levantamento, os formatos, as escolhas e as decisões tendem a frear parte desses objetivos. Isso não quer dizer que o número final não diga algo. Ele diz, e por isso valorizamos tanto as pesquisas.

Ninguém oferta mais importância a isso que os veículos de comunicação. Dado de pesquisa é pauta pronta. É ouro em pó. Assim, veículos de mídia são compradores de pesquisas, e por vezes têm seus próprios institutos. Aqui está um desafio: se a pesquisa for fria, ela gera click? Antigamente perguntaríamos se vende jornal. E a resposta é: talvez.

Lula tem sobrevida política na posição de Edson Fachin no STF. Muita água vai passar embaixo dessa ponte. Mas a pergunta central é: a partir da decisão monocrática do ministro, e da repercussão ampla do caso, algo teria mudado no xadrez eleitoral de 2022? Nas análises sim. Mas e se elas forem subsidiadas por números? Melhor ainda pro analista. Pois bem. Recebemos “de presente” da Exame-IDEA uma pesquisa fresquinha que mostra um Lula potente. Mas veja a forma aparentemente enviesada de fazer as perguntas:

Em 2022 teremos eleições para Presidente da República (até aqui perfeito, a pergunta visa a localizar o entrevistado). Na sua opinião, “Lula do PT” merece voltar a ser presidente?

Por que essa pergunta? E por que “PT” na questão? Quanto isso se repete para os demais concorrentes? O entrevistado, em tese, já não tem esse dado sobre o partido? E mesmo que não tenha, uma pesquisa não tem o papel de informar, ela deve colher de maneira neutra a opinião, ou seja: a percepção de um grupo representativo que se posiciona entre conhecer e ignorar um determinado fenômeno que se busca dimensionar. Aqui existiria uma aparente indução ao antipetismo, ou uma exploração desse objeto. Se a pergunta for essencial, apenas “Lula” daria conta. Já imaginou, por exemplo, perguntar: “Você está de acordo com a forma como o Presidente Jair Bolsonaro conduz o enfrentamento ao Covid-19, tendo em vista que quase 300 mil pessoas morreram?” Olhe o texto que vem depois de “tendo em vista”: ele induz. Precisa? Não. Mas tem mais. Uma outra pergunta da pesquisa mostra:

Você sabia ou tomou conhecimento que o ex-presidente Lula (que não pôde ser candidato em 2018 por causa da Lei da Ficha Limpa) agora se tornou elegível por uma decisão do ministro do Supremo Edson Fachin?

Bom… O intuito de uma pesquisa é aferir um fenômeno, e com ele eventualmente o grau de percepção e opinião do entrevistado. Os parênteses induzem o respondente e colocam uma condição que não se mostra relevante para a manutenção da tentativa de imparcialidade do instrumento. Ademais, aqui Lula aparece como “ex-presidente” e não como “Lula do PT”. A objetividade do texto da questão é pressuposto básico para arrefecer o que chamamos de perda entre o desejo do cliente e o resultado obtido – salvo nos casos onde contratante e empresa de pesquisa, pouco preocupados com o instrumento, estão querendo gerar manchete, mas isso é hipótese. E é por isso que, legalmente, desde o começo do século, o TSE, em ano eleitoral, exige o registro das pesquisas com o questionário. Isso ajuda demais o analista.

De forma mais didática e para resumir toda essa história: não à toa toda pesquisa deve seguir um rigor metodológico. Há regras e protocolos a serem respeitados para que o pesquisador, ao final de suas análises, possa obter um resultado que seja o mais fiel e próximo à realidade que ele deseja medir. Quando o pesquisador parece induzir e interferir na escolha do respondente, o rigor e as regras metodológicas necessárias para a criação de uma pesquisa válida e confiável são quebrados. Abre-se, assim, espaço para as interpretações que fogem à proximidade com a realidade e que colocam em xeque a importância e o comprometimento que a produção científica possui.

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