Marco Zero

Araré Carvalho

11 Outubro 2018 | 21h30

*Escrito em parceria com Toufic Anbar Neto, Diretor da Faculdade de Medicina FACERES e colunista do Diário da Região.

O resultado das eleições legislativas em São José do Rio Preto e no restante do Estado, mais que surpreendente, foi assustador. Na semana anterior às eleições, a onda Bolsonaro varreu o Estado de São Paulo e levou consigo certezas, caciques e o jeito “velho” de se fazer campanha eleitoral.

É necessária uma análise sobre as diferentes nuances do voto ou do não voto a um candidato ou a uma legenda. No estado de São Paulo, entre os 33 milhões de eleitores aptos a votarem, 7,1 milhões não compareceram. Esse índice de abstenção representa mais votos que a quantidade de preferências pela segunda colocada para o senado e também é superior aos depositados em qualquer um dos candidatos a governador.

Para deputado federal, 1,9 milhões de eleitores votaram em branco, enquanto que para deputado estadual esse número foi de 2,1 milhões. No que diz respeito aos votos nulos, foram 2,8 milhões para federal e 2,9 milhões para estadual. Somando esses votos, temos que 40,12% dos eleitores não votaram em um deputado federal e 41,1% deixaram de escolher o seu deputado estadual. Habitualmente, essa massa de votos é atribuída aos que não se recadastraram e aos desiludidos e desinteressados (abstenções), além dos votos de protesto (branco) e um misto de votos de protesto ou erros de digitação (votos nulos).

Restaram disso aproximadamente 21 milhões de votos. Retirando desse aglomerado os 4 milhões dados ao PSL, partido inteiramente formado por outsiders da política: sobram 17 milhões para serem divididos entre o restante dos candidatos, ou seja, estiveram em disputas pouco mais que a metade das intenções. Resultado desse cenário: a taxa de renovação foi de 47% na câmara federal e 55% na assembleia legislativa. Muitos nomes antigos ficaram de fora. O PSL, que era inexistente em São Paulo, tornou-se a maior bancada estadual e a segunda maior na câmara federal.

Outro fato que chamou a atenção foi a pouca efetividade do Horário Eleitoral Gratuito. Vários partidos e coligações tiveram superexposição na TV. Candidatos que monopolizaram a propaganda de seus partidos não se elegeram e outros que praticamente não foram expostos tiveram votação avassaladora. Geraldo Alckmin tinha mais de 40% do tempo de rádio e TV, mas fracassou nas urnas. Durante a campanha, teve 450 inserções curtas na programação, enquanto que o vencedor do 1º turno teve 11.

Se por um lado a TV se mostrou pouco efetiva, essa eleição marcou a consolidação da internet e das mídias sociais como campo de força político. Jair Bolsonaro, candidato à Presidência, é exemplo de aproveitamento do recurso, saindo à frente dos seus concorrentes. Para deputado, alguns dos eleitos dão pistas sobre a força do fenômeno: no âmbito estadual, foi eleito o youtuber Arthur “Mamãe Falei”, com 478 mil dos votos; para deputado federal, Joice Hasselmannom, jornalista com canal no Youtube, alcançou mais de 1 milhão de votos.

Saindo do parâmetro geral, vamos agora para o local: Rio Preto e proximidades. Rio Preto deixou a representatividade de 1 senador, 2 deputados federais e 3 deputados estaduais e vai para apenas 1 deputado federal. Essa diminuição aconteceu em toda a região.

Aloysio Nunes não se recandidatou para o senado e ninguém o substituiu. Para deputado federal, Edinho Araújo (MDB) renunciou ao mandato para ocupar a prefeitura de Rio Preto e Rodrigo Garcia (DEM) ocupa o posto de vice na chapa de João Doria (PSDB) para governador. Ambos tiveram quase 90 mil votos na eleição anterior. Edinho ainda é o candidato a deputado mais votado na história de Rio Preto, com 63 mil das preferências do eleitorado. Entretanto, esse espaço não foi ocupado pelos candidatos locais. O ex-prefeito Valdomiro Lopes teve 23 mil votos na cidade e 60 mil no total; ele carecia de mais 27 mil para se eleger. Esperava-se pelo menos 50 mil votos, por conta do recall de 8 anos comandando a cidade. O atual vice-prefeito, Eleuses Paiva, atingiu a marca de quase 14 mil.

O único eleito com domicílio eleitoral na cidade foi Luiz Carlos Motta (PR). É interessante notar que Motta se elegeria mesmo sem os poucos votos obtidos em Rio Preto (5,8 mil de um total de 75 mil). Dos eleitos, temos Fausto Pinato (PP), de Fernandópolis, eleito em 2014 na cola de Celso Russomano (PRB), com 22 mil votos, e que agora conseguiu 117 mil no total, sendo 2,2 mil em Rio Preto. Geninho Zuliani (DEM), de Olímpia, com apoio de Rodrigo Garcia, teve 1,4 mil do eleitorado de Rio Preto e 89 mil no total. Sinval Malheiros (PODE), de Catanduva, fez 38 mil no total e apenas 398 votos em Rio Preto. Curiosamente, foi um dos deputados que mais trouxe verbas para a cidade, investindo no Hospital de Base e na reforma da UPA do Santo Antôniosinal. Isso é um sinal de que emendas parlamentares, mesmo não tendo esse objetivo, nem sempre se traduzem em votos.

Para deputado estadual, o cenário foi pior: Rio Preto ficou sem representantes na assembleia legislativa; isso não acontecia há mais de 40 anos. Vaz de Lima (PSDB) fez 51 mil no total e 11 mil votos em Rio Preto; faltaram 8 mil para que fosse eleito. Bolçone (PSB) conquistou 44 mil no total e 20 mil em Rio Preto; faltando 17 mil para se eleger. João Paulo Rillo (PSOL) alcançou 30 mil no total e 15 mil em Rio Preto; ele precisava de 23 mil votos para que conseguisse a sua eleição. O vereador Renato Pupo teve 24 mil no total e 15 mil em Rio Preto; ele carecia de mais 33 mil votos. Edinho Filho (MDB) fez 15 mil no total e 10 mil em Rio Preto; para ser eleito, necessitava de mais 51 mil votos.

Da região, Marco Vinholi (PSDB) com 55 mil votos e Beth Sahão (PT) com 54 mil votos, ambos de Catanduva, também não se reelegeram. Lograram êxito Itamar Borges (MDB), de Santa Fé do Sul, com 82 mil votos, Sebastião dos Santos (PRB), de Barretos, com 75 mil votos e Carlão Pignatari (PSDB), de Votuporanga, com 74 mil votos.

O sentimento de descontentamento com a política levou na enxurrada, bons e maus políticos tradicionais; a opção por votar em candidatos apoiados por Bolsonaro, porém com domicilio distante da sua região, revela também que muitos eleitores não enxergaram nos mandatos dos políticos próximos a efetividade que se imaginava. Muitos idealizam o mandato de um parlamentar e a capacidade de realizar coisas, desconhecendo a limitação do cargo.

Talvez isso tenha contribuído para o cenário de terra arrasada da região de Rio Preto. A democracia é pedagógica, mudança nem sempre é para melhor, mas mesmo quando piora, podemos aprender. As entidades de assistência social e beneficentes devem sentir mais a falta de representantes locais. Pedir emendas para deputados como a Janaína Paschoal, que reside em São Paulo, será mais difícil. Ficarão lições para a população e para os derrotados. Como alertamos na última coluna, os mandatos dos deputados deveriam extrapolar as ações que trazem verbas para hospitais e, como dito, necessitavam aproximar mais os seus mandatos dos eleitores, sobre “pena de não serem reeleitos”. Dito e feito.