Mais mulheres, menos corrupção?

Marina Merlo

26 de maio de 2017 | 19h11

A nova onda de delações premiadas da operação Lava Jato, feitas pelos executivos do Grupo JBS, jogou novamente os holofotes sobre nossas figuras políticas e seus envolvimentos em esquemas de corrupção. A primeira reação de muitas pessoas e da sociedade civil como um todo é de se questionar, mais uma vez, qual é essa classe política que estamos elegendo e que medidas podem ser tomadas para coibir efetivamente essas ações ilegais, seja por propostas de reforma do sistema político como um todo, ou por ações e movimentos que pensem na renovação dos representantes eleitos como um todo. Da mesma forma, as pesquisas acadêmicas também têm refletido sobre a questão, procurando determinar quais as causas sociais, institucionais e econômicas que parecem ser comuns nos países com esse problema.

Há alguns anos, esses estudos começaram a observar uma correlação curiosa: quanto maior a presença de mulheres no governo e no Parlamento, menor era a incidência de corrupção nesses sistemas¹. A primeira explicação que emerge é a de que as mulheres seriam o “sexo justo”, essencialmente mais íntegras e naturalmente menos propensas a se envolver em questões ilícitas ou de risco – esse último aspecto, inclusive, sendo confirmado por alguns estudos experimentais que mostraram que as mulheres têm menor chance de assumir riscos, o que explicaria sua decisão de não se envolver em esquemas ilegais.

Contudo, um exame mais minucioso dos dados utilizados nessas pesquisa aponta que o mecanismo que explica esse efeito de “purificação” das mulheres sobre as instituições é dependente das regras democráticas em que estão inseridas: o efeito só é observado em democracias e não em regimes autocráticos. Ou seja, a diminuição da corrupção não seria um efeito de uma moral mais correta e justa inata das mulheres, mas sim um indicador da saúde do sistema como um todo. Um sistema político mais permeável aos atores externos ao jogo político estabelecido, como é o caso das mulheres, implicaria uma democracia com maior accountability e clareza de responsabilidade que, por sua vez, traria uma redução na corrupção. Na presença de instituições transparentes, os indicadores mostram que as mulheres apresentam uma propensão significativamente menor que as dos homens de continuar se envolvendo em esquemas ilegais.

O que inicia ou transforma, então, sistemas políticos a ter mais accountability? Nesse caso, a mudança das regras acontece numa via de mão dupla: tanto pode o sistema ser reformado para ter mais mecanismos de transparência, quanto os atores inseridos nas instituições podem ser a fonte dessa mudança de postura e de funcionamento. Aqui, justamente por conta das mulheres não estarem tão ligadas às redes e esferas de influência tradicionais da política quanto os homens, é o que pode explicar o poder de mudança que a maior representação feminina produz nas instituições.

Em outros textos já publicados no blog, falamos sobre a baixa presença de mulheres nas instituições políticas e representativas e também algumas de suas causas – e, dentre elas, não ter tanta experiência nas dinâmicas políticas e partidárias e nem sempre terem o apoio de figuras políticas tradicionais. Se, por um lado, a exclusão das mulheres dessas esferas de poder é prejudicial para garantir seu acesso aos postos eletivos, por outro, o fato de as candidatas precisarem construir uma rede própria de apoio dentro e fora dos partidos é o que também parece explicar seu alheamento das práticas corruptas – já que estão fora das negociações políticas legais e ilegais, as mulheres chegam ao poder com outra lógica de sustentação que acaba não necessariamente passando pelas barganhas ilegais.

É claro que muito desse argumento ainda depende de estudos mais robustos que esclareçam o que exatamente acontece na relação entre a maior presença de mulheres e a diminuição da corrupção – apesar de figurarem como minoria nas delações que vêm sendo feitas à justiça, o fato de algumas mulheres estarem envolvidas já é uma evidência de que a explicação de que elas são naturalmente boas e justas não cabe. Mas se continuarmos pela explicação de que a sua maior presença é um sinal do fortalecimento das instituições democráticas e representativas, então parece que caminharemos no sentido certo, e não podemos perder o problema da representação feminina e da corrupção de vista.

¹Para uma revisão e discussão detalhada desses estudos, ver o trabalho de Esarey, Schwindt-Bayer (2014). Link: http://polisci.utk.edu/womenpolitics/docs/esarey_schwindtbayer_2014_TN_workshop.pdf

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