H. Arendt, Fake News e a “Nova Política”

Araré Carvalho

18 de dezembro de 2018 | 16h56

*Escrito em parceria com Wladmir Miguel Rodrigues, professor e escritor, autor de “O X de Malcolm e a questão racial norte americana” (Ed. Unesp) e “Filosofia em tempos inquietos (Chiado).

Hannah Arendt foi uma das mais brilhantes pensadoras do século XX. Alemã, judia, pensadora da “teoria política” como gostava de ser classificada, foi perseguida e presa pelos nazistas em 1933. Teve a sorte que inúmeros outros não tiveram: emigrou para os EUA, onde escreveu obras fundamentais para o entendimento de sua época, com destaque para “As origens do totalitarismo”, texto ainda atual para compreendermos as específicas raízes para o desenvolvimento de regimes totalitários na década de 1930, como o nazismo e o stalinismo, e para dialogarmos, guardadas as devidas proporções, com algumas pertinências desta obra com os dias de hoje.

Arendt destaca que o totalitarismo surgiu por razões específicas do seu contexto, não podendo ser classificado pelas visões clássicas da Filosofia, como na tradição platônico-aristotélica, inclusive, ela rejeita a relação causal da filosofia da História de Hegel no que tange a emergência dos totalitarismos. Era preciso ver além do cânone. A pensadora percebeu que “aquilo que jamais poderia ter acontecido”, isto é, o “holocausto judeu” ocorreu por uma soma de fatores, como o “antissemitismo”, o qual era, digamos, menosprezado. O “imperialismo” que as potências europeias desempenharam na Ásia e na África, onde culminou, entre outras, a tragédia no Congo belga, matando milhões de pessoas, como uma espécie de “ensaio” para o que viria pela frente, de repercussão cínica de uma Europa dita “evoluída”; e a “falência do Estado-nação”, o qual não teve instrumentos para garantir a cidadania dos milhões de apátridas que surgiram no Velho Mundo em meio à desagregação de antigos impérios, como o austro-húngaro e o turco-otomano, algo que valeu uma importante crítica à definição de “Direitos Humanos” pela autora.

Ao serem expulsos de seus territórios, com a criação de novas nações, os refugiados deixam de ser pessoas. Arendt conclui que “Homo” é despojado do Contrato Social, um escravizado, não é pessoa jurídica, cidadão. A relação intrínseca entre nascimento e direito à vida se mostrou totalmente frágil e insuficiente perante à ascensão de regimes ultranacionalistas. Foi uma ilusão acreditar que só “nascer” e “ser humano” seriam garantias de direitos. Era preciso de uma proteção da comunidade política. Uma pessoa sem cidadania é uma pessoa sem direitos. Evoluímos a respeito, atualmente?

O totalitarismo aparece neste contexto e é definido como “o governo do domínio total”. Não há persuasão ou consentimento. Só há violência, ilegítima, em uma escala desproporcional. É o horror praticado por um novo tipo de Estado, nunca visto na História política, não podendo ser analisado pela tradição filosófica. Os campos de concentração e de extermínio separam o totalitarismo das demais formas de governo que se conhecia. Esse domínio total é exercido, segundo Arendt, no campo do “tempo” e do “espaço”. Eis aqui uma intertextualidade com a contemporaneidade.

Longe de querer achar que haveria no mundo algum governo que teria semelhança direta com o que fizeram Hitler e Stálin, embora haja a aberração no caso sírio, mas não há dúvidas de que existem semelhanças ao redor do mundo, inclusive no nosso país, com práticas feitas naquela época. Vejamos o que ela entende enquanto “domínio do tempo”: é o controle da História, a qual é adaptada, por meio de adulterações, ao interesse ideológico do governo. São criadas “mentiras históricas” com evidente objetivo político. Não se trata de ponto de vista, mas de mentira pública. Arendt ressalta que essa tática objetiva dominar os fatos, controlando o passado, presente e futuro. É mais do que sabido que naquela época o regime colocava “a culpa da crise econômica e de todos os males nos judeus”, assim como Stálin “destruiu a imagem de Trotsky na Revolução”. Cansamos de ouvir a máxima de Goebbels: “uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade”, e isso tudo sem redes sociais. E nos dias atuais?  Há controle do tempo por partidos, movimentos sociais e governos?

O último dia 13 de dezembro marcou os 50 anos do Ato Institucional n° 5; juntamente com essa data, vieram várias manifestações repudiando os anos da ditadura e o recrudescimento promovido pelo AI-5. No entanto, alguns movimentos, partidos e políticos, tentam relativizar e buscam promover um revisionismo histórico. Do ponto de vista destes, a instalação de uma ditadura violenta, sensora de direita, era necessária para impedir a ascensão de uma ditadura, violenta, sensora de esquerda. E por isso deveríamos deferências aos ditadores, já que nos salvaram.

Esse movimento revisionista que começou há alguns anos pode ter ajudado na eleição de Bolsonaro e ter colaborado para o  número recorde de militares escolhidos para as assembleias legislativas. A concorrência pela narrativa histórica vem na esteira de outros debates insepultos e tem como pano de fundo outras disputas que de forma generalista podem ser colocadas em termos de “esquerda vs. direita”, mas não numa disputa propositiva e moderna, mas num clima que remete aos tempos de guerra-fria, o que faz surgir absurdos veiculados na forma de notícias falsas, essas por sinal tiveram um papel central nas últimas eleições.

A tentativa de “reescrever a história”, que deve ganhar mais força no governo Bolsonaro (vide declarações do futuro ministro da educação), não deve ser entendida como “ignorância histórica”, mas sim como mais um ingrediente da “nova” (?) estratégia política adotada por parte dos partidos e políticos. Escamotear temas de relevância em nome de debates vazios, assentados em notícias falsas, e celeumas falaciosas, parece ser a estratégia da vez.

Criando-se a “guerra” de informações, versões, consolida-se a política do “nós” contra “eles”, de maneira que qualquer crítica, denúncia ou desmando, pode ser facilmente vendido como perseguição, fake news, ou picuinha do “outro lado”.  A negação de que houve uma ditadura no Brasil pode ser uma burrice, uma idiotice. Mas pode se mostrar uma idiotice útil. A conferir.

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