Fluxo migratório na política: de onde são os vereadores brasileiros?

Humberto Dantas

04 de julho de 2017 | 10h45

No final desse mês temos congresso da Associação Latino Americana de Ciência Política. Momento interessante para visitar teorias e resultados, reforçar redes e rever gente querida, esse ano apresentarei um texto em parceria com Bruno Souza da Silva, colega de blog e amigo dos grandes. Trataremos de algo pouco explorado em virtude do gigantismo dos bancos de dados e de um interesse maior pelo país, em detrimento das cidades que o compõem.

Buscamos um perfil dos vereadores brasileiros nas eleições de 2000 a 2016, inicialmente relendo os poucos trabalhos que iluminam os legislativos municipais brasileiros e, em seguida, mergulhando nas características dos cerca de 400 mil candidatos por pleito e nos mais de 57 mil eleitos em cada eleição.

Em meio às nossas análises e descobertas um dado chamou a atenção. Trata-se daquele que mostra a origem dos candidatos nas mais diferentes cidades. Qual o percentual de candidatos que nasceu, efetivamente, onde disputa a eleição? De acordo com o texto a ser apresentado, em 2000 o dado era frágil, mas em 2004 notamos que apenas 38,7% dos postulantes a vagas nas câmaras municipais eram nativos, com oscilações que vão a 37,3% em 2008, 35,9% em 2012 e em 2016 atingiu 37,9%. Isso mostra grande fluxo de pessoas dentro de um mesmo estado, e arriscaríamos dizer que esses cidadãos migrantes trocam de cidade, por razões diversas, dentro de micro regiões, por vezes apenas cruzando simples fronteiras municipais.

Afirmamos isso porque a média de vereadores nascidos no mesmo estado em que disputam eleições municipais cresce no período analisado, passando de 74% em 2000, para 76% em 2004, 77% em 2008, 79% em 2012 e 80% em 2016. A despeito de tais médias simples feitas com base nos resultados de cada estado, e não no contingente total de vereadores, algo chama a atenção: os desvios em relação a tais médias. Estados do nordeste, em geral, têm candidatos nascidos nas próprias unidades federativas em mais de 90% dos respectivos volumes de postulantes. As exceções são Sergipe, Alagoas e Maranhão. Completa a lista Minas Gerais e, com maior ênfase, ultrapassando 96% de média, o Rio Grande do Sul – considerado por muitos como extremamente bairrista e por outros como defensor de suas tradições, terra e valores. Do outro lado dessa lista estão três estados que merecem atenção: Roraima, Rondônia e Mato Grosso, que em nenhuma das eleições superam 50% dos candidatos originários no próprio estado.

No caso desse trio, mais uma curiosidade: ao contrário dos demais estados que têm como segundo maior ofertante de candidatos unidades que lhes fazem fronteira –Paraná e Minas Gerais oferecem muitos candidatos em São Paulo, e estes devem estar nas cidades das divisas, por exemplo – em Rondônia quem pesa fortemente nas candidaturas é Minas Gerais e principalmente, o Paraná, que também reina no Mato Grosso. Em Roraima, a força é dos maranhenses. Tais resultados podem contar muito sobre o fluxo migratório de brasileiros e o resultado de tais movimentações pelo território brasileiro. A pesquisa segue com outras tantas características que merecerão destaque oportuno, bem como merecerá aprofundamento esse aspecto associado ao universo das origens e destinos de cidadãos que flutuam pelo estado brasileiro e se envolvem diretamente com a política local. Cruzar essas mudanças de estados com a idade dos candidatos pode ilustrar com ainda mais precisão o que de fato ocorreu, pintando na política um quadro do que o país produziu nos últimos 50, 60 anos em termos das andanças de seu povo.