Fazendo da laranja uma limonada

Humberto Dantas

24 de junho de 2020 | 20h01

*Texto escrito por Luciana Elmais e Marina Cano, sócias da Legisla Brasil, uma sociedade sem fins lucrativos que acredita no poder das equipes em transformar a política.

Acompanhar todas as movimentações que acontecem na vida política brasileira segue sendo uma tarefa intensa e complexa. Estamos sufocados por notícias de laranjais, rachadinhas e diversos outros escândalos de corrupção, sempre associados à política. E nós, cidadãos, que sentimos diariamente os efeitos de uma política que parece não funcionar, acabamos nos afastando e criminalizando este espaço.

Cansar e não querer acompanhar são atos compreensíveis. Temos nossos próprios empregos, afazeres e vidas para cuidar.  No entanto, deixar a política de lado tem suas consequências. O Poder Legislativo continua como palco das principais tomadas de decisão do nosso país, e criminalizar a política não constrói o futuro que queremos.

Os escândalos da vez falam sobre a “assessoria parlamentar”, aquela equipe que acompanha cada rostinho famoso dos políticos votados a cada 2 anos. São essas pessoas que fazem a política acontecer. Hoje, elas representam mais de 70 mil servidores[1] públicos em todo Brasil. É muita gente, né?

“Rachadinha”, ato de repartir o salário do assessor parlamentar com o político, ou “laranja”, funcionários fantasmas que exercem suas funções apenas no papel, são hoje o que constitui o imaginário do que são os assessores parlamentares no Brasil. Cabides de emprego feitos sob medida para cada parlamentar.  Mas nem só de escândalo vive a política.

Por trás de todo político de sucesso, existe uma grande equipe. Formada pelos melhores profissionais do mercado. Guiada por dinâmicas internas de autonomia, eficiência,  objetivos claros e criatividade. Essas equipes existem, e estão espalhadas e despercebidas por todo o Brasil e, infelizmente, ainda não são maioria.

Imagine se todos os 70 mil formassem equipes brilhantes, que tornassem as promessas de campanha em políticas públicas efetivas. Construir equipes notáveis, que fazem a gente andar para frente, é tarefa complexa. Como atrair os melhores profissionais se na nossa imaginação as equipes parlamentares seguem sendo enquadradas em todos os noticiários como o espaço do escândalo? Precisamos romper o ciclo vicioso de apenas nos aproximar da política para tratar do pior que existe no meio.

Podemos aproveitar a conjuntura, repleta de laranjas, e fazer uma limonada. Vamos usar da oportunidade do momento para nos reaproximarmos e construirmos os bastidores da política que queremos.

[1] Estimativa a partir dos limites legais de contratação, considerando cargos comissionados em gabinetes parlamentares de senadores, deputados federais, estaduais e  vereadores. Não inclui cargos concursados das casas legislativas.

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