Existem dois PSL’s?

Humberto Dantas

17 de julho de 2020 | 11h20

*Texto de autoria da turma de pós-graduação em Ciência Política da FESP-SP no primeiro semestre de 2020 como parte da disciplina de Análise Política.

 

No final de 2019, sem ao menos completar dois anos da nova legislatura, o PSL, partido com a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, decidiu punir 18 de seus parlamentares com base em um parecer do Conselho de Ética da legenda, explicitando o racha que se acentuou desde que o presidente Jair Bolsonaro anunciou a criação de um novo partido, o Aliança pelo Brasil.

O processo, que passou por judicialização e cobertura efetiva da grande imprensa, é mais um capítulo da notável falta de coesão de um partido que passou de um deputado federal eleito em 2014, para 52 em 2018, alavancado pelo sucesso personalista da candidatura presidencial de Jair Bolsonaro.

Com base na análise das votações nominais de 2019, tais punições se justificam sob a ótica de atuação desses parlamentares? O intuito central aqui é perceber se efetivamente o PSL era, ou é, um partido cindido. Em declaração dada em meados de julho de 2020 seu presidente nacional, Luciano Bivar, garantiu que o PSL não é governo, mas a pauta liberal pode contar com o apoio convicto dos parlamentares da legenda no Congresso.

De acordo com o Basômetro, instrumento de análise elaborado pelo jornal O Estado de S. Paulo, a média de coesão dos deputados do PSL em 2019, em torno das posições do líder do governo – Major Victor Hugo (PSL-GO) -, foi de 97,5%. Para efeito de comparação, esse índice só foi menor do que o atingido pelo PT no segundo governo de Lula (98%), se considerados os últimos cinco mandatos presidenciais e a posição de sua legenda em relação ao respectivo líder na Câmara.

Em relação ao grupo dos 18 parlamentares punidos, estão longe de representar um 18 Brumário para o PSL: seu percentual de adesão ao governo foi de 98%, muito similar à média do partido, diferença essa que não justifica, por si só, as suspensões impostas.

Portanto, os dados mostram que, na verdade, o PSL como um todo se demonstrou bastante fiel à agenda do líder do Presidente em 2019. Bolsonaristas do PSL ou PSListas bolsonaristas, ambos grupos dentro do partido caminham sob um mesmo norte, ainda que com sutis diferenças. Desse modo, fica claro que o PSL está rachado somente em forma e não em conteúdo.

A relação, se o objetivo é demonstrar conflito, teria começado a dar sinais de desgaste no final do ano, em meio ao anúncio de saída do presidente da legenda em novembro. A partir de então, considerando os dois últimos meses do ano, as taxas de governismo caíram para 94,7% e 90,6%, respectivamente. Entre os ditos fiéis ao presidente, ou os punidos pela legenda, 97,1% em novembro e 91,9% em dezembro. Já os demais estabeleceram 93,5% e 90,0%. Há mesmo um conflito? Bivar garante que em termos ideológicos: não.

Assim, poderia se dizer que os membros do partido se mantêm adeptos ao sentimento bolsonarista. A diferença é que os “não punidos”, seguindo a nova identidade que o partido tenta criar, procuram no discurso se distanciar da personificação deste sentimento chamado Jair Bolsonaro.

 

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