Eleições Municipais e o Personalismo

Araré Carvalho

02 Fevereiro 2016 | 11h09

Estudos nas áreas da ciência política e da sociologia identificam que o eleitor brasileiro é extremamente personalista e pragmático na escolha de seus candidatos. O descrédito da classe política, a desconfiança geral em relação aos políticos, aliado a uma percepção de ineficiência da política geraram um eleitor ainda mais cético. Este ceticismo fortaleceu e fortalece as bases do personalismo eleitoral.

A crise política que o país atravessa só intensifica este processo de desencantamento com partidos e instituições políticas, como o Congresso nacional, as assembleias estaduais e as câmaras de vereadores, dando mais forças ainda para o personalismo. A ideia de que partidos e instituições são pouco confiáveis desvia o foco do eleitor para as características pessoais do candidato. Para além do conteúdo programático do partido e da candidatura, valores pessoais são tomados como guia dos votos.

Esse processo se intensifica quando falamos de eleições municipais. Primeiramente porque o país não possui partidos nacionais. Uns mais, outros menos, cada partido ganha configurações particulares em cada município, possuindo, algumas vezes, os contornos de seus líderes locais. Isso tende a ser ainda mais verdade em municípios com menos de 200 mil eleitores que não têm tanta atenção das direções nacionais dos partidos.

Outro problema é que poucos eleitores chegam a ter contato com o plano de governo do candidato. O que se vê nos panfletos e santinhos são propostas genéricas do tipo “Mais Educação, Mais Saúde”. Ou seja, a escolha de um candidato ou outro obedece, novamente, a critérios pessoais. Relações de parentesco, de trabalho, religiosa e de amizade ajudam na definição do eleitor, muito mais do que as propostas da chapa. Com efeito, a escolha do candidato, para boa parcela dos munícipes, está baseada fortemente nas avaliações que o eleitor faz das características pessoais dos candidatos.

Quando dizemos avaliação das características pessoais, estamos falando da imagem que o político transmite. No manual de política “O Príncipe” de Maquiavel, que ainda hoje é o livro de cabeceira de marqueteiros políticos, o florentino nos lembra: “não é importante ser, mas sim aparentar ser”. Transmitir a imagem de competente e honesto não é a mesma coisa de sê-lo. Muito das características que definem o voto podem não ser exatamente incorporadas pelo candidato, mas vendidas como se fossem.

Levantado esses pontos, as eleições municipais, ainda que sejam o espaço por excelência onde o voto personalista ganha mais força, também pode ser o locus de uma mudança de paradigma na política nacional. Os recentes debates políticos, e manifestações, deram alguns tons mais ideológicos às eleições municipais que se avizinham. Caso as manifestações e debates acalorados (que surgiram a partir das jornadas de junho de 2013 e tiveram prosseguimento nas manifestações pró impeachment) tenham realmente algum efeito, a tendência é que tenhamos eleitores mais críticos e vigilantes nestas eleições. O desafio é compreender se crentes o suficientes para escolher alguém, ou descrentes a ponto de fazer aumentar, como em 2014, os votos brancos e nulos. O município, pela proximidade que os eleitores têm do candidato e pelo acesso mais fácil ao passado e índole dos concorrentes, talvez seja o espaço desse aprimoramento.

Ao eleitor, caberá buscar as propostas reais e factíveis dos candidatos. Proposta e fonte de financiamento para concretizá-la. Saber quais são as atribuições de cada instância do Estado, qual é o papel dos vereadores e dos prefeitos. Pós constituição de 1988, os municípios tomaram uma importância muito grande na descentralização administrativa e na criação de políticas públicas. Chegou a hora desta importância ser percebida pelos eleitores agora mais qualificados. Espera-se, assim, que o resultado seja prefeitos e vereadores melhores.