Eleições legislativas nos Estados Unidos: resultados e perspectivas pós-eleitorais

Michelle Fernandez

13 Novembro 2018 | 14h39

*Escrito em parceria com Nathalia Henrich, doutora em sociologia política pela UFSC e professora da Catholic University of America em Washington.

No dia 6 de novembro, foram realizadas as eleições para o Congresso dos Estados Unidos, conhecidas como Midterm Elections por acontecerem durante a metade do mandato presidencial. Estavam em disputa todas as 435 vagas para representantes na Câmara de Deputados e um terço dos Senadores (de um total de 100). Neste ano, 36 estados e 3 territórios (Guam, Ilhas Virgens Americanas e as Ilhas Marianas do Norte) escolheram ainda novos governadores e várias cidades votaram para prefeito, incluindo a capital, Washington.

As Midterms são sempre relevantes porque estabelecem qual dos dois partidos, Republicano ou Democrata, terá maioria nas duas casas legislativas pelos próximos dois anos e pode determinar se a agenda do Executivo será ou não cumprida. Elas funcionam como uma espécie de termômetro, que mede como a população está avaliando o governo. Os votos no partido ocupante da Casa Branca são encarados como aprovação do programa do Presidente porque expressam o desejo de ver seus projetos aprovados pelo legislativo. Este seria o primeiro grande teste do governo Trump, que vem mantendo níveis estáveis de popularidade e já fala em reeleição em 2020. Com a polarização aguda que se estabeleceu na política nos Estados Unidos, não surpreende que o comparecimento às urnas tenha atingido o nível mais alto desde 1966 para as Midterms, com cerca de 47%.

As disputas foram acirradas. Em alguns estados houve recontagem de votos e até tentativa de impugnação de resultados. Os inflamados discursos anti-imigração de Trump às vésperas da eleição, parte da sua campanha de medo promovida por causa da “caravana” de migrantes centro-americanos vindo do México, não conseguiram barrar a “onda azul” de crescimento do Partido Democrata na Câmara. Com pelo menos 225 deputados eleitos (alguns resultados ainda não foram declarados oficialmente), o Partido Democrata conquistou a maioria na Câmara. O Senado se manteve nas mãos dos Republicanos, ainda que tenham perdido algumas cadeiras. Isso significa que o Partido Republicano já não detém o poder no Executivo e nas duas casas do Legislativo, como acontecia desde a eleição de Trump em 2016. Existe uma possibilidade de paralisação e/ou readequação de projetos da administração Trump em áreas como imigração e acesso à saúde.

O novo Congresso Americano será o mais representativo da história. Houve um número recorde de mulheres candidatas, muitas inspiradas por movimentos como “Me too” e como reação aos comentários misóginos de Trump desde a campanha presidencial. Com isso a Câmara será composta por um número inédito de mulheres (22%). Entre elas, a representatividade também aumentou. Foram eleitas as duas primeiras congressistas indígenas, uma delas também a primeira candidata declaradamente gay eleita no seu estado. Mulheres muçulmanas passaram a compor o Legislativo americano pela primeira vez com duas representantes. Ilhan Omar, que emigrou da Somália há mais de duas décadas, será a primeira refugiada a ocupar um assento no Congresso dos Estados Unidos. No Senado, Arizona e Tenessee elegeram mulheres pela primeira vez. No Texas, um dos estados com a maior população de latinos no país e reduto republicano, elegeu pela primeira vez duas legisladoras latinas.

Um outro fenômeno político interessante percebido nos resultados eleitorais da última semana foi o crescimento da Organização Democratas Socialistas (DSA), que em 2015 tinha 5.000 filiados e hoje conta com 52.000 pessoas nas suas fileiras. Entre suas grandes bandeiras está a implantação de um sistema público gratuito de saúde. Os socialistas obtiveram vitórias importantes nas primárias do Partido Democrata e concorreram em todos os níveis nestas eleições. Os resultados indicam que sua plataforma vem encontrando eco no eleitorado, que elegeu dois membros para a Câmara e alguns não filiados apoiados pela organização. Porém, ainda estão longe de se estabelecerem como força eleitoral consolidada e ainda estão buscando seu espaço dentro do partido Democrata. Uma das estrelas em ascensão do grupo é Alexandria Ocaso-Cortez, eleita com 29 anos a congressista mais jovem da história, que fez uma campanha meteórica em Nova York, derrotando um veterano da política no estado.

O crescimento da diversidade e o aumento da representatividade foram, sem dúvida, grandes vencedores desse pleito eleitoral. Em um contexto político mais polarizado, fomentado pelo presidente Trump, o novo Congresso americano, principalmente a Câmara, aparece como um possível baluarte para a garantia de direitos sociais e de minorias nesse país. Também podemos vincular o crescimento, ainda que tímido, do DSA no Congresso à “radicalização” promovida por Trump na política americana. Parece ser que o governo de Trump vai se desenhando como uma espécie de força centrípeta, já que os Republicanos eleitos estão mais próximos do perfil do atual presidente, ou seja, mais à direita no espectro ideológico. De qualquer forma, Donald Trump emerge como uma figura dominante deste processo eleitoral e o seu teste final será na disputa eleitoral de 2020. Será que o equilíbrio do sistema político norte-americano pode ser deslocado do centro para os extremos no longo prazo?