Eleição é para poucos: como a competição eleitoral se concentra em torno de poucos candidatos no Brasil

Lara Mesquita

11 de junho de 2019 | 16h05

No início de maio, o Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp) da FGV-SP divulgou os resultados de pesquisa realizada a pedido da Fundação Brava sobre a relação entre dinheiro e política no Brasil.

O trabalho foi dividido em 3 capítulos. No primeiro, calculou-se os custos das campanhas eleitorais dos candidatos a deputado federal, e os impactos nos custos das campanhas da proibição das doações de pessoas jurídicas. No segundo, foi realizado levantamento das sentenças em primeira instância dos casos envolvidos na operação Lava Jato, com intuito de mensurar os valores ilícitos repassados às campanhas eleitorais. No terceiro capítulo foram apresentados modelos de fiscalização e controle do uso de dinheiro na política em diversos países do mundo.

Dentre os muitos achados interessantes dessa pesquisa destaco um, que nos diz muito sobre a competição política eleitoral no país: o número de candidatos que se apresentaram ao cargo de deputado federal em 2018.  Embora naquele pleito mais de 8 mil candidatos tenham se apresentado, o trabalho define menos de 5% como candidatos competitivos, ou seja, que registram desempenho eleitoral que os coloque, minimamente, em condições de disputar uma vaga.

O critério adotado pelos autores para determinar um candidato como competitivo foi o de o candidato atingir uma quantidade de votos que represente ao menos 75% dos votos do último candidato eleito da sua respectiva lista de candidatos. Por exemplo, no estado de São Paulo o Partido Novo concorreu de forma isolada, sem formar coligações com outros partidos, e elegeu 3 representantes em 2018. O último dentre os 3 eleitos, aquele com menor votação, obteve 45.298. Dessa forma, foram considerados candidatos competitivos na lista de candidatos do Novo todos aqueles que obtiveram pelo menos 33.973 votos, 75% dos votos recebidos pelo último eleito da lista em questão[1].

O que os autores mostram é que, no pleito de 2018, dentre todos os candidatos não eleitos, de todos os 26 estados e do DF, apenas 166 cumpriram esse requisito. Ou seja, dentre os 7.570 candidatos que não se elegeram em 2018 apenas 2,2% são considerados “competitivos”. Para se ter parâmetro de comparação, em 2014 foram 149 candidatos competitivos, enquanto no pleito de 2010 apenas 152, em todo o país, cumpriram esse requisito.

O que aprendemos com esses dados é que a disputa eleitoral no país é extremamente concentrada em torno de pouquíssimos candidatos. Se o leitor tiver curiosidade de se debruçar sobre o trabalho, vai descobrir que esses candidatos competitivos, se somados aos 513 eleitos, concentraram, entre 2002 e 2014, em média, 73% de tudo que foi gasto entre todos os candidatos a deputado federal nas 4 eleições do período. No pleito de 2018, esse percentual caiu para 58%. Ou seja, em 2018, apenas 679 candidatos (8,4%) de um total de 8.083 competidores a uma cadeira de deputado federal, concentraram 58% de tudo que foi gasto e declarado à justiça eleitoral. Essa concentração era ainda maior nas eleições anteriores. Também descobrirá o eleitor curioso que esse universo e dominado por candidatos homens e brancos.

O que aprendemos com esses dados é que não basta ter vontade e boas intenções para romper a grande barreira de enfrentar e ser bem-sucedido em uma campanha eleitoral. Embora as novas regras tenham contribuído para diminuir as diferenças em termos de gastos de campanha entre o grupo formado pelos candidatos eleitos mais os competitivos em relação aos não eleitos, ou como apresentado em outra parte do trabalho entre homens e mulheres, entre os candidatos negros e pardos e os candidatos brancos, o primeiro grupo ainda é muito seleto e restritivo, e a barreira de entrada na competição política e, portanto, ao parlamento continua altíssima.

Estar preparado para enfrentar o desafio é apenas o primeiro passo dessa árdua batalha. E, nesse momento, com mais de 15 meses de antecedência, milhares de pessoas pelo país afora, com maior ou menor consciência do tamanho desse desafio, já se preparam para se apresentar como candidatos em 2020.

[1] Os Custos da Campanha Eleitoral no Brasil: Uma análise baseada em evidência. Página 42.