Dois anos depois

Vítor Sandes

03 Novembro 2015 | 18h54

Em agosto de 2013, escrevi um texto, juntamente com os cientistas políticos Leon Victor de Queiroz e Luiz Fernando Miranda, analisando os 60 dias após os movimentos de junho daquele ano. As principais conclusões daquele texto foram “as iniciativas governamentais parecem não responder completamente às demandas da população” […] mas que “uma coisa realmente mudou: a classe política percebeu que as pessoas sabem que a ‘velha política’ não dá conta das reais demandas da população”. Deste diagnóstico, algo mudou?

Nos meses de junho e julho de 2013, o país passou por um momento que poderia ter sido crítico no processo de mudança política. Inicialmente, o movimento, provocado pelo aumento de 20 centavos na tarifa de ônibus, reivindicava “passe-livre” no transporte público municipal nas grandes cidades. Após reação truculenta da Polícia Militar, primeiro em São Paulo e posteriormente no Rio de Janeiro, o movimento ganhou corpo, recebendo o apoio de manifestantes de diversos setores da sociedade, que se unificaram sob a bandeira da eficiência nas ações estatais e no gasto público. O recado das ruas era claro: o Estado e, consequentemente, os agentes governamentais deveriam estar a serviço, unicamente, dos cidadãos. Após o movimento, a aprovação do Governo Federal despencou: de 60% em maio para 30% no mês seguinte. Num momento de rara mobilização, o brasileiro se tornou politizado e extremamente crítico às ações dos agentes governamentais. Tamanha mobilização, com milhões de pessoas em todo país, deveria ter sido capaz de transformar as práticas políticas institucionais no Brasil.

De lá para cá, muita coisa aconteceu: uma proposta de plebiscito para reformar a política (que não aconteceu); eleições presidenciais mais acirradas da história brasileira; operação “Lava-Jato”; fenômeno Eduardo Cunha; problemas na economia (desvalorização do Real, aumento da inflação e fraco crescimento econômico); cortes em verbas da educação; e tentativas e mais tentativas de um “pacto pelo alto”. Os movimentos de junho, na verdade, em vez de aproximarem o Estado da sociedade civil, criaram um abismo entre eles. Se a sociedade civil passou a ficar mais atenta e crítica, o Estado permaneceu ineficiente. A dificuldade dos agentes governamentais de atenderem as demandas difusas (porém, claras), saídas dos movimentos de junho, foi evidente.

Em vez de pactuar com setores mais amplos da sociedade, inclusive com a classe média, o Governo Federal se afastou da sociedade civil e tentou garantir a estabilidade institucional via negociação de cargos, conforme os ditames do “presidencialismo de coalizão” brasileiro. O Congresso e, especificamente, as oposições unidas presentes na Câmara dos Deputados (lócus da representação política), por outro lado, caminharam para a direita, para se diferenciar do Governo Federal. No jogo político, de ocupação de espaços, a classe política entendeu que a saída seria pelas instituições: de um lado, os governistas tentando se manter no poder; do outro, os oposicionistas buscando justificativas legais para o processo de impeachment. No meio disso, o PMDB, sem posições claras, continua representando o gradualismo das soluções brasileiras: “não é contra, nem a favor, muito pelo contrário”.

No meio disso, a população, órfã de representatividade, passou a se digladiar em debates políticos travados nas redes sociais, nos corredores e nas mesas de bar, sem qualquer possibilidade de intervir, de forma significativa, nas decisões públicas. A população se dividiu e alguns encamparam, por exemplo, movimentos pró-impeachment que passaram a acontecer nos domingos de sol nas grandes cidades. No entanto, aos poucos, o custo da mobilização se tornou mais alto do que os benefícios alcançados. A pauta impeachment, diferente daquela de junho de 2013, era seletiva e não coletiva.

Mesmo após dois anos dos movimentos de junho de 2013, os agentes governamentais não entenderam o recado das ruas. A Câmara dos Deputados deu uma guinada à direita, enquanto o Governo Federal, com sérias dificuldades orçamentárias, passou a implementar políticas austeras, afastando-se dos movimentos sociais. Em nome de um jogo jogado “pelo alto”, as mudanças reais não aconteceram – nem de forma abrupta, nem gradual – e a democracia brasileira tem perdido a chance de avançar mais.