Desafios da Tolerância

Eduardo Seino

24 de março de 2016 | 14h39

Em parceira com Leonardo Menezes, mestre em Ciência Política pela USP

Não se fortalece a democracia sem dificuldade. Estamos vivendo um momento em que a divergência de visões políticas tem conduzido a uma tal radicalidade de posições que não seríamos capazes senão de reconhecer que a tragédia é o nosso destino. A mudança de curso exige que sejam reafirmados determinados valores. Dentre eles, precisamos firmar um comprometimento coletivo com a tolerância enquanto fio condutor do convívio social. Para tanto, a formulação de um princípio de tolerância, em primeiro lugar, necessita de uma resposta ao problema da intolerância. Ou seja, não podemos condicionar o direito de expressão da cidadania a uma concordância prévia entre partes, adotando uma postura de recusa da possibilidade de os “outros” influenciarem os rumos da sociedade.

A face social da tolerância é o que restringe a nossa ação contra algo que nos desagrada, impedindo-nos, por exemplo, de odiar uma pessoa em função das suas preferências, sejam religiosas ou político-partidárias, ainda que estejamos em total discordância. Refrear o impulso de construir no “outro” a figura de um inimigo só é possível à medida que reconheço nele um ser igualmente capaz de chegar às suas próprias convicções legítimas sobre as diversas dimensões da vida. Pensar o contrário significaria assumir uma posição de superioridade moral absolutamente descabida. Logo, o que se requer são boas doses de respeito mútuo e, em alguma medida, a possibilidade de adotar a perspectiva do outro, por mais que este seja um exercício árduo. É esse o caminho para reconhecer a liberdade individual e o valor moral igual de outrem.  

Em específico, quando entramos no campo da política, as tensões tendem a aumentar porque ela mexe com aquilo que carregamos de mais profundo e projetamos, de forma abrangente, sobre como o mundo deve ser. Por isso, quando alguém questiona uma convicção que está entranhada em nós é como se questionasse a nossa própria identidade, desestabilizando-nos. Afinal, como alguém pode não ver o mundo ao meu modo? Por certo, se as incertezas fossem mais leves, também seria mais fácil lidar com elas.

Em contextos de pluralismo, a tolerância tem sido um desafio constante para a vida democrática. Desafio que precisa ser incorporado e cultivado entre os atributos desejáveis de qualquer cidadão, na medida em que a diferença precisa ser vista como benéfica não só no plano do discurso. Em outras palavras, aceitar o pluralismo moral, em nossa sociedade, é compreendê-lo como resultante de uma sociedade democrática. Porém, reconhecer este fato significa, primeiramente, admitir a prioridade da tolerância ante concepções antagônicas sobre nossos valores, como indivíduos e cidadãos. Justificar a tolerância como uma questão de princípio não se limita a que cidadãos estejam de acordo sobre a verdade de suas concepções de bem. É o respeito mútuo entre pessoas, o que envolve estar ciente da importância de direitos e liberdades sobre como o outro conduz a própria vida, sobretudo no que tange a questões públicas controversas, como a liberdade de expressão – o princípio normativo fundamental para constituição de um regime constitucional democrático.

Certos modos de definição da tolerância podem conferir legitimidade ao oponente (político), de maneira que a intolerância se mostra uma moeda política custosa. Não parece fora de questão, mesmo a quem defende a tolerância, exigir que uma forma específica de conduta seja proibida em nome da proteção de vítimas de fenômenos de intolerância. Para evitar a erosão de um sistema de tolerância, tanto nas ruas quanto nos parlamentos, é necessário que lhe seja dado valor suficiente.

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