Crise republicana: desconfiança e pouca representação

Crise republicana: desconfiança e pouca representação

Cláudio André de Souza

13 de junho de 2017 | 16h57

As eleições de 2014 radicalizaram o antipetismo em forma de contestação do resultado das eleições presidenciais e posteriormente através dos protestos a partir de março de 2015 que defendiam ser a corrupção no país quase que exclusivamente um “mal petista”. A consequência dos protestos foi coroar o caráter político do impeachment. Venceu a narrativa de que o país estava paralisado pela corrupção, cuja consequência mais drástica seriam os malogros dos petistas na condução da economia. Sob a mira do judiciário, o impeachment talvez se tornara um atalho institucional de poder do Presidente Temer e de seus aliados para controlar e influenciar as investigações da Lava Jato.

Paradoxalmente, o pacto da classe política vencedora pós-impeachment com a sociedade civil se baseou na representação do combate à corrupção e, em especial, da missão de salvar rapidamente a economia. Em ambas as frentes o governo se mostrou fracassado. Para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2017, o mercado financeiro elevou a previsão de um crescimento de 0,48% para 0,49% de alta. Com esse resultado, não há retomada significativa de geração de empregos a médio prazo.

As delações feitas até aqui fizeram explodir na sociedade civil o sentimento de crise de representação, afetando PT, PMDB e PSDB, que deram estabilidade ao sistema partidário no período 1989-2014. Uma nova dimensão desta crise com ares de incerteza está em curso com o pedido de inquérito da Procuradoria-Geral da República (PGR) envolvendo o Presidente Michel Temer e o líder do PSDB, o Senador afastado Aécio Neves (MG).

Para além do desfecho deste novo capítulo da crise, é estarrecedora a opção do governo, em defender a continuidade das propostas de reformas, ignorando a manutenção de um chefe de estado à frente do país nestas circunstâncias, confirmando abertamente que pouco importa o diálogo com a sociedade. Pesquisa recente do Datafolha aponta que 71% dos brasileiros são contra a reforma da previdência e a taxa é considerável entre mulheres (73%), brasileiros que ganham entre 2 e 5 salários mínimos (74%), jovens de 25 a 34 anos (76%) e os com ensino superior (76%).

Em uma outra perspectiva, a crise tende a colocar o legislativo no turbilhão diante de possíveis desfechos como: a) um eventual pedido de prisão do Senador Aécio Neves (PSDB-MG); b) andamento das reformas e mudanças impopulares propostas pelo Executivo; c) julgamento de uma eventual denúncia contra o Presidente feita pelo STF sob pedido da PGR; d) reforma política com medidas que alterem drasticamente para 2018 o sistema eleitoral. O cenário colocado na sociedade civil é de crítica aos políticos, avançando uma desconfiança histórica das instituições por parte da população. Segundo o relatório de 2016 da ONG Latinobarômetro, somente 25% da população latino-americana confiava no Congresso. No caso do Brasil (2015-2016), apenas 9% da população acreditava que o governo age para o bem de todo o povo (Ver Gráfico abaixo).

Caso houvesse serenidade entre os partidos que conduzem o governo atual, as reformas deveriam passar por referendo popular como forma de legitimar a república. A pura aposta dos governistas no marketing da “retomada da economia” como trunfo para 2018 é estapafúrdia e comprova os motivos de prolongamento da crise de representação em que estamos inseridos. Não haverá saída para a crise sem defender um caminho institucional a favor da participação da sociedade e a mais clara emissão de sinais de autocrítica dos representantes em direção aos representados, em especial, no que pensam sobre a corrupção.

* Cientista Político e Professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). E-mail: claudioandre@unilab.edu.br