CPI da COVID, mídia e espetacularização

Araré Carvalho

04 de maio de 2021 | 18h28

Começa essa semana a oitiva das testemunhas na CPI da Covid. CPI que tem potencial para atrair atenções como não vimos desde a CPI do “Mensalão”.  Instaurada e finalizada no ano de 2005, a Comissão Parlamentar de Inquérito foi um divisor de águas na história das CPIs. Isso porque ela foi a primeira a ter ares de folhetim dramático. Acompanhada de perto pela mídia, a comissão que investigava a denúncia do “Mensalão” levou as TVs das duas casas (TV Câmara e TV Senado) baterem recordes de audiência. A CPI do Mensalão inaugurou também uma prática que se tornaria recorrente no Brasil, que é uma certa espetacularização da Justiça e do Legislativo. Desde então, julgamentos do STF e CPIs tomaram ares de espetáculo midiático. Não há dúvidas de que se por um lado a publicização das reuniões das CPIs ajudaram no processo de transparência da ação dos parlamentares, também contribuiu para a espetacularização desses eventos. É certo que quanto maior as polêmicas, mais as comissões atrairão o interesse do público e dos meios de comunicação.

O aumento do interesse, e por consequência da audiência dessas comissões e julgamentos, refletiu nos deputados e senadores, que também investiram na divulgação de suas imagens, usando a cobertura das CPIs para difundir seu nome, mandato e atuação. A midiatização das CPIs conferiu um novo padrão de visibilidade aos parlamentares, dando maior publicidade as suas ações.

Os debates acalorados, a tentativa de criar situações de impacto, e a possibilidade de ter seu nome e imagem difundida pelos meios de comunicação, seduz os participantes das CPIs. Passagens marcantes e discussões mais exaltadas tendem a ser lembradas por muito tempo. Quem não se lembra dos “instintos primitivos” de Roberto Jeferson (PTB-RJ), quando a oitiva do José Dirceu (PT-SP) na comissão de 2005 (os mais jovens, procurem no YouTube)?

A CPI que se inicia essa semana tem potencial para gerar faíscas e situações memoráveis. Temos um Renan (MDB-AL) disposto a levar a fundo as investigações sobre os rumos do combate a pandemia; por outro lado, temos um governo que vem produzindo um farto material para os que querem enquadrá-lo como omisso e/ou até “estimulador” da pandemia. As tentativas do governo de barrar Renan como relator, e de impedir a convocação de ex-ministros, falharam. O governo tenta demonstrar que não está se preocupando com a CPI, e juntamente com Lira (PP-AL), dizem que existem pautas a serem votadas mais importantes, e que essas devem tomar a preocupação de parlamentares e da sociedade.

O problema é que a CPI envolvendo um tema quente como a pandemia, que acarretou, e continua causando, milhares de mortes no país, deve gerar, por si só, um interesse maior que qualquer outra reforma que deva ser votada. Dessa forma, a Comissão Parlamentar de Inquérito deve pautar os meios de comunicação de massa e as redes sociais nos próximos meses. Com um potencial de alimentar outros fenômenos.

É comum, entre analistas políticos, condicionar a abertura de um processo de impeachment a 3 fatores. Crise econômica, falta de apoio no Congresso e povo protestando nas ruas. Dessas condições, a crise econômica é a única realmente sedimentada. O governo tenta ainda domar o “centrão” que dificilmente pode ser “comprado” no máximo alugado, e com uma manutenção caríssima, e o governo está descobrindo isso. O desenrolar da CPI pode promover um desgaste ainda maior do governo junto a população e por consequência, no parlamento, contribuindo para os outros dois fatores, falta de base aliada e povo nas ruas, comece a ganhar contornos definitivos. É um processo que se retroalimenta, quanto mais desgastado o governo, mais insatisfação da população e mais à vontade ficam os congressistas para pularem fora do barco e começarem a pedir a “cabeça do presidente”.

Nesse cenário, a cobertura da mídia terá um papel central na construção da narrativa que se dará a partir dessa semana. Conseguirá o governo se desvincular da catástrofe que assola nosso país? A CPI trará evidências fulcrais da inoperância do governo federal frente a pandemia? E como tudo isso será narrado, pelos meios de comunicação e personagens da CPI? A internet conseguirá emplacar uma narrativa paralela, com o uso da pós-verdade?

Diferentemente de 2005, a internet ocupa um espaço bem maior na construção da narrativa, na divulgação das notícias e por fim no impacto que a CPI pode causar nos rumos políticos do país. A CPI de 2005 não teve um fim. Muitos da oposição acreditavam que o melhor era fazer o presidente sangrar até as eleições para derrotá-lo, já desgastado, nas urnas. Quanto a CPI da Covid, a história começa a ser contada essa semana. A conferir!

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