Como o Legislativo conquista votos nas periferias?

Humberto Dantas

15 Novembro 2018 | 10h28

Texto escrito em parceria com Paulo Talarico, jornalista da Agência Mural de Jornalismo das Periferias

 

Você sabe o que faz uma agência de notícias que foca seus esforços em noticiar as periferias das grandes cidades? Se sua resposta estiver associada à percepção de que ela reforça a lógica de falar sobre violência, crime e exclusão está muito enganado. Na verdade, você está a serviço do senso comum. As periferias têm severos problemas e desafios, todos nós sabemos, mas isso é só uma parte do que se vive em bairros por vezes estereotipados pela “grande imprensa”. A vida nas periferias é muito mais plural e diversa do que o centro conhece pelo noticiário. Assim, a Agência Mural luta, dialoga, relata, busca conhecer e diversifica nossa realidade.
Com base em tal desafio, você seria capaz de dizer como parte das campanhas para o Poder Legislativo são realizadas nas periferias de uma região metropolitana como São Paulo? Garantimos que de forma diferente daquela que atinge os moradores dos centros e seus edifícios e condomínios fechados. O mundo virtual pode inundar todos os nossos celulares e contas nas redes, isso não muda tanto. Mas uma coisa é verdade: se você recebeu poucos santinhos de candidatos pelos Correios, com selo, envelope e tudo o mais, o mesmo não ocorre em bairros cujo adensamento de quem vive em casas geminadas e ruas estreitas é visto como alvo principal de verdadeiros exércitos de cabos eleitorais que passam dias distribuindo santinhos que inundam caixas de correspondências penduradas em portões ou rebocadas em muros. A realidade ali é diferente: não é incomum uma família chegar em casa e ver sua caixa transbordando de propaganda eleitoral, tampouco o chão de seu quintal ou garagem forrado de papel. Esqueceu a janela aberta? A palavra “correio” fica num vão da sua porta? Não se admire se a sala ou o quarto forem decorados com tapetes de santinhos espalhados. E quando chove? Já viu a tragédia, né? Sem contar o cachorro que engasga, o carrinho da feira que derrapa na papelada espalhada pela rua e o trabalho pra limpar toda essa sujeira. Mas isso funciona? A questão desafia, mas a prática se mantém viva, a despeito de termos menos dinheiro em circulação nas campanhas e menos material impresso desde 2016. Por sinal, no último pleito municipal a Mural fez a primeira versão de uma bela matéria para retratar essa realidade. Confira a seguir o resumo do que foi encontrado em 2018.

Numa casa da Jova Rural, bairro do extremo Norte de São Paulo, pelos lados do Jaçanã, durante 45 dias mais de 100 materiais impressos diferentes seriam deixados na caixa – certamente pouco se considerarmos a riqueza das campanhas de 2014. A cruzada do Major Olímpio, eleito senador pelo PSL, contribuiu com 18 santinhos, a de Gil Lancaster (PSB), com reduto em Barueri, a 45 quilômetros dali, deixaria 17. A deputada federal reeleita Renata Abreu (Podemos) atingiria 13, enquanto sua colega de Câmara eleita senadora, Mara Gabrili (PSDB) e os petistas Ênio Tatto e Barba, bateriam a marca de oito cada um. Nessa hora a “ideologia” não separa ninguém…
Ao todo, a Agência Mural acompanhou a rotina de 12 residências de diferentes bairros periféricos da Grande São Paulo, e aquela da Jova Rural foi a que mais recebeu santinhos durante o primeiro turno da campanha – 116. Também na Zona Norte da capital paulista, uma casa no Jardim Damasceno, distrito da Brasilândia, recebeu 15 propagandas com reinado de nomes do PT. Os trabalhadores também se fizeram mais presentes em residências do Jaraguá, na zona Oeste. Entre os 20 diferentes materiais, Zaratini, Francisco Chagas e Luís Fernando predominaram, mas quatro tucanos, com destaque para a reeleita Bruna Furlan, de Barueri, e dois candidatos do PSL, também deixaram “suas marcas”.
Rumando para a zona Sul, uma casa no Grajaú recebeu média de um santinho por dia, ou seja, 45 propagandas foram deixadas, sendo 19 do PT sob o domínio da família Tatto, que reina na área coletando milhares de votos e desbancando nas urnas locais de 2018 a dupla do PSL Janaína Paschoal (estadual) e Eduardo Bolsonaro (federal). Residências localizadas em cidades da Região Metropolitana não deixaram de ser agraciadas, com destaque para Jordanópolis, em São Bernardo do Campo, e Bandeiras em Osasco.
Partidariamente falando o PSDB findou liderando o levantamento com 113 santinhos somados nas casas pesquisadas. Em segundo lugar veio o PT (91), mostrando que a polarização que caracterizou por tanto tempo nossa política ainda se vale de alternativas bem tradicionais e sujas de campanha – suja no sentido literal, não sob a ótica legal. Em meio aos resultados colhidos nas urnas e ao que se tem convencionado chamar de nova política, ficamos com a dúvida: onde vamos e desejamos chegar? Em algo mais sustentável econômica e ambientalmente? Em algo mais respeitoso? Você: seria capaz de votar por conta de algo que invadiu a sua caixa de correio? Quem somos nós eleitores em meio a essas estratégias? O futuro poderá nos dizer…