Bolsonaro e a campanha interminável: passionalidade ou estratégia?

Carolina de Paula

12 de março de 2019 | 14h55

Em 2018 tivemos a campanha presidencial mais curta da nossa história recente: foram apenas 45 dias, exatamente a metade dos dias à disposição dos candidatos em 2014. Contudo, a julgar pela movimentação do canal preferido do presidente, as redes sociais – de modo particular, o Twitter – a sensação é de que estamos em campanha há meses. Mesmo internado durante 17 dias no mês de janeiro para um procedimento cirúrgico, o presidente não abandonou as redes. Mandou saudação para os seguidores e recado para os opositores. Quando relaxava um pouco nas postagens, eram os filhos que davam um jeito de mobilizar a rede do pai, agitando os seguidores com tweets polêmicos, tal como acontecera durante toda a campanha.

A ideia de “campanha permanente” não é nova. Legisladores, de modo particular, são bastante acostumados a ela, pois sabem que a reeleição depende em grande medida dos interstícios eleitorais e da capilaridade que conseguem criar e cultivar quando estão no poder. O que é novidade no caso Bolsonaro é a manutenção, no Planalto, do modus operandi da campanha eleitoral, tanto na forma quanto no conteúdo. Vejamos o caso mais recente (até esse momento que escrevo, já que velocidade dos episódios é impressionante!): a divulgação, em pleno carnaval, de um tweet em que o presidente traz um vídeo com conteúdo sexual explicito. A postagem dizia “é isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”.  Todo cidadão com um mínimo de acesso às redes sociais ficou sabendo, as hashtags comentando o assunto viraram trend topics,  deu no Jornal Nacional e até a imprensa internacional repercutiu. A pergunta imediata que boa parte de nós se faz ao ver o vídeo é: porque uma postagem assim, tão custosa para um governo em início de mandato, e sobre um assunto tão alheio à rotina de um líder do Executivo?

Particularmente, a primeira resposta que me veio à mente foi a passionalidade do nosso presidente. Por todo o país, vaias e fantasias críticas aludindo ao presidente e sua entourage foram recorrentes entre os foliões das dezenas de blocos de rua das cidades. Assim, o tweet depreciativo à comunidade LGBT, seria uma resposta passional às críticas recebidas. Sabemos que o carnaval também é político, Michel Temer, Lula e Dilma, foram alvos de sátiras e diversas ofensas, mas nenhum deles reagiu de tal modo. O que nos faz pensar que tem mais do que passionalidade na ação do atual presidente.

A “campanha interminável” de Bolsonaro nas redes sociais não permite que o presidente cumpra a razoável liturgia do cargo, ou, como preferem alguns, exerça com decoro suas atividades de interação com a sociedade, porque isso faz parte de uma estratégia de um líder que tem num grupo muito particular de seguidores, e não na sociedade brasileira como um todo, o seu sustento principal. Seus seguidores esperam que ele haja como sempre, denunciando as práticas “erradas” da moral e da família. Aliado a esse sentimento de clamor da sua base de apoio, existe um problema, a meu ver, ainda mais difícil de contornar sem que ele continue a ser o mesmo personagem da campanha: as críticas da grande imprensa sobre suas atitudes. Novamente, podemos argumentar que Lula e Dilma sofreram ataques da imprensa, e nem por isso reagiram de tal modo. A diferença fundamental aqui é que a base de apoio dos ex-presidentes petistas foi construída sobre estruturas institucionais sólidas. Bolsonaro, de certa forma, virou refém do jogo que ele mesmo criou para ser eleito, precisando manter sempre viva a enxurrada de ataques, seja à oposição, seja às minorias, seja aos “esquerdistas”, como ele costuma chamar a parte da sociedade que não concorda com sua visão.

A grande questão é saber se essa estratégia se sustentará a longo prazo. Apagar incêndios é tarefa básica de todo governo, contudo, quando o próprio presidente atiça fogo quase que diariamente o cansaço/boicote da equipe se tornará inevitável. A votação da Reforma da Previdência será um assunto extremamente custoso para o presidente. Sem falar nos demais atores – partidos aliados, por exemplo – que anseiam por um presidente que organize uma coalizão que até agora patina. Dialogar apenas com as frentes parlamentares mostrou-se  equivocado, o jogo precisará ser jogado agora dentro das instituições e com os líderes partidários, o que parece não ser conciliatório com  um presidente que continua buscando crescer mais nas redes sociais do que no número de partidos da sua coalizão. Espera-se que um presidente eleito cumpra, minimamente, a liturgia do cargo de governar o país e protagonize, junto ao presidente da Câmara e do Senado, as questões mais urgentes. Com uma legislatura tão fragmentada, no que tange ao número de partidos, se o presidente continuar em sua “campanha interminável” a conta  simplesmente não vai fechar.